quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

cocaína pura mata e brocha



SINTONIA FINA: Por trás da ação na Cracolândia, eleições e especu...

SINTONIA FINA: Por trás da ação na Cracolândia, eleições e especu...: Juliana Sada A ação da prefeitura e do governo de São Paulo na chamada Cracolândia completa oito dias sob intensa contestação. Promot...

Dependência de nicotina

Drauzio Varella


Nicotina é uma droga que anda com péssimas companhias. Pouco contribui para as doenças causadas pelo cigarro, deixa o serviço sujo por conta das centenas de substâncias tóxicas resultantes da queima do fumo, inaladas ao mesmo tempo.

É ela, entretanto, a responsável pela dependência química que escraviza o usuário. Não existisse nicotina nas folhas de fumo, o cigarro daria tanta satisfação quanto fumar um pé de alface.

Na coluna de hoje, leitor, vou explicar porque 80% dos que tentam livrar-se dessa droga fracassam já no primeiro mês de abstinência e porque míseros 3% permanecem abstinentes depois de um ano.

O cigarro é um dispositivo projetado para administrar partículas de nicotina dispersas na fumaça. Absorvida nos alvéolos pulmonares, a droga cai na circulação e chega ao cérebro em velocidade vertiginosa: 6 a 10 segundos.

Sabe Deus por que capricho, os neurônios de algumas áreas cerebrais possuem pequenas antenas (receptores) às quais a nicotina se liga. A ligação com os receptores abre canais na membrana desses neurônios, através dos quais transitarão diversos neurotransmissores, substâncias que interferem com a intensidade dos estímulos que trafegam de um neurônio para outro.

Um deles é a dopamina, mediador associado às sensações de prazer e à compulsão que nos faz repetir as experiências que as proporcionaram, sejam sexuais, gustativas ou induzidas artificialmente por drogas psicoativas como cocaína ou maconha.

A nicotina induz prazer e reduz o estresse e a ansiedade. O intervalo entre as tragadas é ajustado na medida exata para controlar a excitação e o humor. Fumar melhora a concentração, a prontidão das reações e a performance de algumas tarefas. A simples manipulação do maço, o gosto, o cheiro e a passagem da fumaça pela garganta são suficientes para trazer bem estar ao dependente.

A razão mais importante para esses benefícios é o simples alívio dos sintomas da síndrome de abstinência. Das drogas conhecidas, nenhuma causa abstinência mais avassaladora: irritabilidade, agitação, mau humor, ansiedade crescente e anedonia, a incapacidade de sentir prazer.

A exposição repetida dos neurônios à nicotina dispara o mecanismo de tolerância ou neuroadaptação, por meio do qual o número de receptores aumenta em suas membranas. Como consequência, para experimentar o mesmo prazer do principiante o cérebro passa a exigir doses cada vez mais altas. Negar-se a fornecê-las é cair no inferno.

A repetição diária de crises de abstinência alternadas com a felicidade de ficar livre delas leva o cérebro a associar os efeitos agradáveis da nicotina com certos ambientes, situações e momentos específicos. Esse conjunto de fatores é responsável pelo condicionamento que obriga a acender mecanicamente um cigarro antes mesmo da necessidade consciente de fazê-lo.

Estados de humor desagradáveis, ansiedade e irritação de qualquer origem são lidos pelo cérebro como falta de nicotina e urgência para fumar.

Estudos realizados com irmãos gêmeos mostram elevado grau de predisposição genética envolvido na aquisição da dependência, nas características dos sintomas de abstinência e até no número de cigarros fumados por dia.

O comportamento das mulheres fumantes é mais influenciado pelo condicionamento e pelos estados de humor negativos; o dos homens, mais pelos estímulos farmacológicos da droga. Os homens regulam as doses de nicotina inaladas com mais precisão e conseguem parar de fumar com menos sofrimento.

Primariamente, a nicotina é metabolizada por uma enzima do fígado (CYP2A6). Pessoas nas quais essa enzima apresenta atividade reduzida, mantém a droga mais tempo em circulação e tendem a fumar menos. Metabolizadores rápidos precisam fumar mais, apresentam sintomas de abstinência mais intensos e encontram maior dificuldade para largar do cigarro.

Droga maldita. Não conduz a nenhum nirvana, não desperta fantasias psicodélicas nem traz sensação de felicidade plena. O que faz o fumante cair nas garras do fornecedor é o condicionamento associado à sucessão dos sintomas de abstinência aplacados imediatamente pelo cigarro seguinte. Fumar se torna condição sine qua non para sobreviver com dignidade.

Noites traiçoeiras



"O Analfabeto Político" - Bertolt Brecht



Maria Bethânia - Cântico Negro (1982)

Oscar Wilde loucos e santos.



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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Abstinência também mata

De acordo com o psiquiatra Arthur Guerra de Andrade, do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool, é raro, mas a abstinência pode matar.
“Durante a abstinência, a pressão pode aumentar, a pessoa pode ter taquicardia, tremores, ficar ansiosa, suar frio”, diz Andrade. “O grau máximo da abstinência é chamado de delirium tremens, em que o paciente passa a ter crises convulsivas.” O Delirium tremens pode ocorrer quando uma pessoa interrompe o consumo de álcool depois de beber por muito tempo. A falta de alimentação também pode agravar a situação. Segundo o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, é mais comum em pessoas que tomam entre 4 e 5 doses de vinho ou até oito doses de cerveja por dia - durante vários meses. De acordo com Ana Cecília Marques, da Associação Brasileira do Estudo do Álcool e Outras Drogas, em torno de 5% dos pacientes podem desenvolver essa síndrome de abstinência grave. 
Entre os sintomas, os pacientes podem sentir medo, sofrer alucinações, convulsões, dores no peito, febre e vômito. Em geral, esses sinais aparecem a partir de 72 horas após a retirada total do álcool do organismo. Estudos sugerem, porém, que eles podem ocorrer entre 7 e 10 dias após a última dose ingerida. Depois desse período, os sintomas pioraram progressivamente. “Quando essas pessoas param de beber, acontece um ‘caos químico’ no sistema nervoso central. Além de alucinações e convulsões, o paciente também apresenta alterações no sistema cardiovascular e no sistema respiratório”, diz Ana Cecília Marques. “Antes, o cérebro do paciente havia desenvolvido uma tolerância ao álcool. Sem ele, tudo deixa de funcionar como deveria. A pessoa pode morrer por falência.”
Arthur Guerra de Andrade explica que, em casos de crise de abstinência séria, o paciente deve procurar um serviço de emergência, onde será atendido numa Unidade de Terapia Intensiva que tratará os sintomas com medicamentos anticonvulsivos, calmantes, entre outros. Sem a ajuda de um médico, segundo Ana Cecília Marques, dificilmente o paciente sobrevive.
Para quem deseja parar de beber, os médicos indicam a interrupção total da bebida alcóolica. A decisão, porém, deve ser acompanhada de perto por um especialista, capaz de controlar sintomas de uma possível complicação, como é o caso da síndrome de abstinência grave. O pai de Amy, Mitch Winehouse, disse que sua filha lutava contra o álcool havia anos e, quando morreu, estava completando três semanas sem beber. O resultado do inquérito sobre a morte da cantora britânica deve ser conhecido no dia 26 de outubro.


Almas Mortas de Pedro Khima

Se um outro que não este rosto me vingar,
Se em algo mais a nova rota falhar.
Ver para além de mim,
Sem me livrar de mim.
Se uma mentira fosse um prazer carnal,
Quanto eu perdi.
Se por rasteira do silêncio me engoliu,
Se por acasos do mistério sorriu.
Ter o ciúme em mim,
Ter o ladrar em mim.
Se uma mentira fosse um prazer carnal,
Como eu caí,
E o mundo pedi em voz de quem perdeu.
Sobe e rasga o sonho, 
Diz-me que tudo é mentira,
É fantasia,
Uma sombra para não mais lembrar,
Vá se lá saber.
Se de alma morta de inveja se vingou,
Se de arma sóbria de sentido matou.
Sem duvidar de mim,
Sem respirar por mim.
Se uma mentira fosse um prazer carnal,
Como eu caí,
E o mundo pedi em voz de quem perdeu. 

Gilberto Gil - Punk da Periferia



O Paradoxo de Nossos Dias

O paradoxo de nossos dias é que temos prédios cada vez mais altos, mas nossa auto-estima é cada vez mais baixa; estradas largas, mas pontos de vista estreitos; gastamos mais, mas temos menos; e quanto mais compramos, menos apreciamos o que já tínhamos.
Temos casas maiores, e famílias menores; mais conveniência, mas menos tempo; mais diplomas, mas menos bom senso; maior conhecimento, mas menor julgamento; mais especialistas, e mais problemas, mais remédios, e menos bem-estar.
Bebemos muito, comemos mais ainda, gastamos sem ponderação; rimos muito pouco, dirigimos muito rápido, ficamos zangados tão facilmente; ficamos acordados ate tarde, quando muitas vezes precisamos levantamos cedo; lemos pouco, assistimos muita televisão, e quase não oramos.
O paradoxo de nossos dias é que multiplicamos nossas posses, mas reduzimos nossos valores. Falamos muito, amamos raramente, e odiamos freqüentemente. Aprendemos a como sobreviver, mas não viver; adicionamos anos a nossa vida, e não vida aos nossos anos.
Somos capazes de ir para a lua e voltar, mas temos dificuldade de atravessar a rua para conversar com o nosso vizinho. Conquistamos o espaço exterior, mas não o espaço interior; fazemos coisas maiores, que muitas vezes não são as melhores.
Limpamos o ar, mas poluímos a alma; dividimos o átomo, mas não nosso preconceito.
Escrevemos mais, e aprendemos menos; quanto mais planejamos, menos executamos. Aprendemos a correr, mas não a esperar; temos rendas maiores, muitas vezes com uma moral menor; temos cada vez mais computadores, mas menor comunicação verdadeira entre nós; nos tornamos especialistas em quantidade, mas deficientes em qualidade.
Estes são tempos de “fast-food” e digestão demorada; homens grandes, e caráter pequeno. Tempos de paz mundial, mas guerra doméstica; mais entretenimento, mas menos alegria.
O paradoxo de nossos dias é que construímos casas cada vez mais belas, quando ao mesmo tempo destruímos nossos lares. Vivemos dias de viagens cada vez mais rápidas, fraldas descartáveis, moralidade sem valor, relacionamentos de uma noite; e que para sobreviver a tudo isso alguns tomam pílulas que agem de diferentes formas: algumas alegram, outras acalmam, e algumas outras matam.
Vivemos em um momento que nos preocupamos muito com a nossa vitrine, quando muitas vezes não temos nada no estoque; um momento em que você pode tanto fazer a diferença, ou simplesmente fingir que nada está acontecendo …
(Escrito por Dr. Bob Moorehead. Traduzido e adaptado por Kleber O. Gonçalves.)

A depressão e o uso de drogas


São Paulo, 19/2/2007
Por Leandro Fortino
DEPRIMIDOS PROCURAM ALÍVIO NAS DROGASFerramentas feitas por macacos há 4.300 anos foram achadas na Costa do Marfim. Achado é a mais antiga evidência preservada de comportamento primata e o primeiro sítio arqueológico não-humano descoberto
A depressão pode levar o adolescente ao consumo de álcool e drogas. É o que mostra um recente estudo feito pelo psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, do Proad (Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes) da Unifesp, com 400 adolescentes, entre 14 e 19 anos, com problemas com álcool e drogas.

Intitulado "Depressão na Adolescência e o Consumo de Drogas", o trabalho mostrou que 44% desses jovens apresentavam alguma doença depressiva. Ou seja, quase a metade deles. O estudo constatou também que 77% desses 44% já tinham um transtorno de depressão antes mesmo de começar a usar drogas ou álcool.
"O fato de eles procurarem álcool ou droga tinha a ver com a necessidade de diminuir os sintomas de depressão, que eles tinham, mas não sabiam que estavam doentes. Usando álcool e drogas, isso melhorava um pouco", explica o médico, lembrando que o alívio é apenas momentâneo e acarreta complicações na doença.

É o caso do suicídio, cuja possibilidade cresce muito quando há o encontro da depressão com o álcool e as drogas.

"Se o adolescente estiver deprimido, aumenta 2,5 vezes o risco de ele se matar. Mas, se a depressão levá-lo a se tornar dependente de álcool ou de drogas, o risco aumenta 50 vezes", alerta Silveira.

Segundo o psiquiatra Marcos Tomanik Mercadante, o risco de dependência de álcool e de drogas secundário a um quadro de depressão é alto. "Você tem um moleque que está irritado e, quando fuma maconha, se sente melhor. Além da depressão, ele pode passar a ter uma dependência por maconha, cocaína ou álcool, principalmente", diz Mercadante.

Para a psiquiatra Lee Fu I, quando se fala em drogas desencadeando quadros depressivos, não seria, no primeiro momento, depressão, mas, sim, uma relação emocional-comportamental com a droga.

"O problema é que, quando a depressão se soma à dependência, temos duas patologias. Quanto mais doenças se somam, mais complicado é o tratamento e é maior o comprometimento do indivíduo", diz.

A psicóloga Leila Tardivo explica que a relação depressão-consumo de drogas é uma via de mão dupla. "A depressão pode levar ao consumo de drogas assim com as drogas podem desencadear a depressão. Você quer correr o risco?", pergunta. 

Fonte:Instituto de Psicologia 

Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura... se é verdade. Tanto horror perante os céus?

É verdade: Recaí. Não havia porque mentir. Tropeçei e cai. Estou vivo e de pé e cabeça erguida. Reconheço que errei e de nada adianta querer culpar quem quer que seja. Sou responsável por mim. 

Neste momento lembro algo que escutei outro dia:
Fulano de tal está internado. O contrato dele de 06 meses venceu. A irmã, que vive distante dos pais e que não dá qualquer assistência ao mesmo quer renovar o contrato. Motivo: o pai do cidadão deu, oralmente, uma serie de casas ao mesmo e, para "proteger" o patrimônio do irmão, a irmã afastada decidiu renovar o contrato. Assim distante, com o pai em idade avançada e, com a probabilidade de vir a óbito, antes do filho, fica preservado o bem do irmão, enquanto a "boa" irmã assegura ao seu "cativo" a devida proteção.

O cuidado maior não é a saúde do adicto, mas o que ele poderá receber de herança, de modo antecipado, ou não. Casos semelhantes a este são inúmeros e é muito triste verificar a quantidade enorme de pessoas internadas em péssimas condições de saúde, inclusive com necessidade de fazer cirurgia.

São pessoas que deixam de ter direitos, que vivem o inferno do claustro, confinados e retidos em sua liberdade de ir e vir. São seres capazes que estão submetidos determinados a viver, contrariados, uma outra modalidade de loucura.

No caso em que existem interesses em jogo, tais internações não são legais. Seria ideal que existissem mecanismos eficazes de amparo a estas pessoas. Seria ideal que clínicas não virassem depósitos de seres humanos, seria ideal que familiares não cometessem o crime de abandono de incapazes. Como sofrem estes seres indefesos e desamparados que estão no limite das suas faculdades mentais, beirando a loucura.

Em nome da vida decidem qual deverá ser o destino alheio. Que tipo de vida buscam defender e proteger?

Privar outrem da liberdade é fácil demais e está ficando tão fácil que qualquer um pode se tornar vitima desse sistema louco e absurdo que encontra justificativa no uso de drogas. Acautelem-se seres humanos inteligentes, basta usar qualquer droga, perder o controle, para cair na rede da insensatez e do oportunismo. Para lucrar e se ver livre de alguém existem clínicas e só é preciso contar uma estória, acionar o "resgate" e pronto. Uma loucura. São filhos internando pais, geralmente alcoólicos, só para se verem livres do mesmo e, ao mesmo tempo, tutelarem os bens dessas vitimas fragilizadas sob todos os aspectos. Não tem quem socorra estas pessoas que, invariavelmente, são chamadas de manipuladoras. Não há comissões de direitos humanos, não haverá ministérios públicos, nem procuiradores, nem ninguém que aceite abraçar a causas de adictos desamparados e desassistidos pela lei. Só Deus poderá julgar estas ações nefastas.

A ética está sendo derrotada e uma doença chamada adicção vem sendo utilizada para "prender" seres humanos que não possuem sequer direito de defesa e ninguém que possa escuta-los. São seres incomunicáveis, dopados, ou não, e submetidos a toda sorte de humilhações, incluindo o trabalho escravo que é intitulado como "laborterapia". Haja "LABORTERAPIA" para camuflar um novo tipo de escravidão.  Como é confortável para um familiar achar que enjaulando alguém está fazendo o melhor possivel. Só me cabe lembrar o grito do poeta dos escravos: Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura... se é verdade. Tanto horror perante os céus? 

s/revisão   

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É a realidade !

Drogas - “É baixa a taxa de recuperação”




Zero Hora - RS - 14/04/09

Com 35 anos de experiência, o psiquiatra Sérgio de Paula Ramos, coordenador da Unidade de Dependência Química do Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre, defende a “erradicação do consumo de álcool entre adolescentes” como forma de combater a epidemia de crack.
– Nunca tratei um paciente, independentemente de crack, cocaína, maconha, que a primeira droga na vida dele não tenha sido álcool – diz, em entrevista concedida a ZH:
Zero Hora – O que representa uma mãe, desesperada, matar um filho?
Sérgio de Paula Ramos – É um marco. Tínhamos primeiro uma situação preocupante de consumo de álcool. Depois, que Porto Alegre era a capital brasileira onde os adolescentes mais consumiam maconha. Mais tarde, começou o uso de cocaína, ecstasy e surgiu o crack de forma avassaladora. Nós tínhamos a famosa foto da mãe algemando o seu filho no pé da cama. Agora, uma mãe matando seu filho por desespero. Vamos ter de decidir se ficamos debatendo o caso da mãe que matou o filho ou se pensamos o que está havendo com a nossa cidade, o nosso Estado, os nossos jovens.

ZH – O que que deve ser feito?
Ramos – Uma política responsável sobre álcool. Erradicar o consumo de bebida alcoólica por adolescentes. Devemos pegar como uma questão de honra de que, na minha cidade, menor de idade não bebe álcool.
ZH – Ele era dependente de crack. O que tem a ver o álcool?
Ramos – Pergunte para a família dele qual a primeira droga que ele ingeriu e com que idade. Fecho que é bebida alcoólica e com idade entre 12 anos e 15 anos. Com 35 anos de trabalho nesta área, nunca tratei um paciente, independentemente de crack, cocaína, maconha, que a primeira droga na vida dele não tenha sido álcool. Se você consegue adiar a iniciação ao álcool, reduz a taxa de alcoolismo e o envolvimento com outras drogas. Criaria um cenário urbano mais clean, menos droga. O segundo foco é a Lei Seca, cuja fiscalização deve ser retomada. Acho que poderá haver até um resgate da cidadania.
ZH – Por que uma coisa está encadeada na outra?
Ramos – Há muitas teorias para a escalada da droga. Existem pessoas que são atraídas parcialmente pelo desafio. O álcool me deu um barato, mas dizem que a maconha é melhor, então vou experimentar. Olha, o legal é a cocaína, o ecstasy, e acabam experimentando a cocaína. E, por fim, o crack.
ZH – Como o senhor avalia as políticas públicas no Estado voltadas ao combate dessa epidemia?
Ramos – Inexistem. Tenho assistido a tímidas iniciativas e a muito discurso. Você não consegue resolver uma epidemia de crack criando 500, 600, mil leitos. Os tratamentos para dependentes de crack graves são pouco eficazes e ninguém tem dinheiro para abrir tanto leito. Você tem de segurar o touro pelo chifre muito antes do crack entrar em cena.
ZH – O senhor conhece alguém que tenha se recuperado do vício do crack?
Ramos – Há dois anos, eu falei que não tinha recuperado ninguém. Hoje, recuperei uma meia dúzia. Mas é baixa a taxa de recuperação. É uma dependência química muito suscetível a recaídas.

Um artigo interessante

DEPENDÊNC QUÍMICA

Muito se tem falado sobre a dependência química, que nada mais é do que a doença dos dependentes de drogas. Casos trágicos ocorrem com muita frequência em todo o mundo, vitimando pessoas de todos os níveis sociais. Apesar de a Organização Mundial da Saúde (OMS) considerar o dependente um doente(CID 10 F19), muito preconceito ainda envolve a questão, pois a sociedade teima em ver como pessoas fracas e irresponsáveis os alcoólatras, os cocainômanos, os maconheiros e, agora, os consumidores de crack, além daqueles que se drogam com tranquilizantes.

O psiquiatra Mário Biscaia, que tem vínculo com um centro de pesquisas sobre dependência química, integrante da Universidade Rockfeller, em Nova York, aborda com profundidade o tema, constatando que o problema é mesmo uma doença.
– Por que uma pessoa procura consumir drogas? Apenas por carências psicológicas ou há também fatores orgânicos?
– Não existe um fator único. Há uma predisposição do meio social, da família, características psicológicas, como indivíduos com baixa tolerância à frustração ou com impulsos, além de uma predisposição orgânica, genética, à dependência química. Esta predisposição vem sendo provada nos últimos anos em função da descoberta das endorfinas, drogas internas produzidas por nossos organismos em situações de estresse e de dor, que promovem nosso bem-estar. Em estudo feito nos Estados Unidos, foi provado que algumas pessoas sofrem de uma alteração nesse metabolismo, produzindo menos endorfinas. As drogas então viriam a preencher o vazio deixado pela baixa produção de endorfinas.

– Quais são as drogas que criam dependência química?
– Qualquer droga psicoativa. Não há mais a antiga definição de dependência psíquica ou física. O quadro de dependência química é característico de uma compulsão de procura por drogas, e cada indivíduo tem uma escolha. Existem drogas mais pesadas, e cada uma tem um potencial de dependência. Por exemplo, o crack, que é cocaína fumada, tem um potencial de dependência de quase 100%. O da cocaína aspirada fica em torno de 60% a 70%. O álcool, em torno de 10%. Ou seja, de cada 100 pessoas que bebem, 10 vão se tornar dependentes de álcool.

– E quanto às ‘bolinhas’? São anfetaminas ou antiolíticos?
– As duas formas de comprimidos mais usadas são as anfetaminas, por causa dos remédios para emagrecer, e os tranquilizantes, tipo benzodiazepínicos, que são mais comuns ainda. Esta é a quarta droga mais usada. A primeira é o álcool; a segunda, o tabaco; a terceira, os inalantes (as colas, o éter, etc.); a quinta, a maconha; e a sexta, a cocaína.

– O tratamento por abstinência total, na verdade, não é novo. Há muitos anos vem sendo adotado pelos Alcoólicos Anônimos. Esse ainda é o único caminho possível?
– O que os Alcoólicos Anônimos, movimento fundado em 1935, perceberam só agora está sendo cientificamente provado. Não gosto dos tratamentos que se originam de posições radicais. Acho que todo tratamento deve começar por um diagnóstico bastante apurado do caso, para que se saiba se a dependência química está associada ou não a alguma outra patologia, a um quadro fóbico, ansioso, depressivo, porque, uma vez instalado o quadro de dependência química, está comprovado que o indivíduo cria uma memória biológica e, se voltar a usar a química, a compulsão volta.

– E o que fazer?
– A abstinência é o alvo que se deseja atingir, mas devemos elaborar métodos para trabalhar cada caso depois de um diagnóstico profundo de cada pessoa. Não é o que acontecia antes, quando se tinha uma visão dogmática. A dependência química ultrapassou a visão psicológica, meramente psicanalítica, que via a dependência apenas como um sintoma. Era feita uma terapia para tratar o sintoma, o indivíduo ficava bem e podia ser um usuário apenas social daquela droga. Isso está ultrapassado! Dessa visão passou-se para outra dogmática: a de que todos os dependentes químicos são iguais e têm de se adaptar a um único modelo de tratamento. Hoje existem alguns modelos e, feita a avaliação individual, fica-se sabendo qual tratamento o indivíduo aproveitaria melhor...

- Isso explicaria, por exemplo, o caso de Marilyn Monroe, que, apesar de fazer tratamento psiquiátrico e psicanalítico, morreu de overdose?
– Não tenho conhecimento específico desse caso, mas tenho o palpite de que foi um acidente. Talvez ela já tivesse um quadro de intolerância aos remédios, não conseguisse dormir e tenha tentado uma dose maior. Essa questão de comprimidos é um problema muito sério. Todo mundo só vê cocaína, mas o número de acidentes com as drogas lícitas é bem maior.

– Existem medicamentos que podem ajudar o dependente na fase inicial de abstinência?
– Devido aos avanços da psicofarmacologia, determinado tipo de medicamento ajuda no início do tratamento, se a pessoa desenvolveu um quadro de depressão neuroquímica com diminuição de alguns neurotransmissores. Aí, o emprego de antidepressivos pode ajudar se a pessoa está muito espoliada também de complexos vitamínicos e aminoácidos. É preciso igualmente observar se o dependente químico tem alguma outra patologia. Ele às vezes usa droga porque não está sendo medicado adequadamente devido a outro problema. Ele pode ser dependente químico por ter uma depressão orgânica. Então, vai precisar tomar antidepressivos, para não procurar a droga.

– Por que ainda são baixos os índices de recuperação de dependentes químicos?
– Porque temos poucos locais especializados para tratamento de dependentes químicos. A maioria só é atendida em dois lugares: nos pronto-socorros, em situação de emergência, ou em clínicas psiquiátricas, de maneira inadequada, pois um usuário que usou crack por anos, não vai ser em 30 dias que ele vai se recuperar, é necessário um tratamento a longo prazo para se ter sucesso. É preciso criar modelos separados. O modelo das unidades corretas é o das comunidades terapêuticas com tratamento baseado no modelo americano, com a internação voluntária, com avaliação médica profunda e padrão adaptado à nossa realidade, resgate de valores e reeducação disciplinar e principalmente onde a família se trata junto. Este modelo tem alcançado um índice de recuperação de 30% de adultos e até de 60% de adolescentes

Sobre Internação e tratamento ambulatorial

A internação do dependente, ao contrário do que se acreditava antigamente, não é solução para todos os pacientes. Ao contrário, os estudos científicos realizados nas últimas décadas não comprovam nenhuma vantagem de um método hospitalar em relação a ambulatório para toda a população de dependentes que buscam, ou são levados para o tratamento. Pelo contrário, a internação é melhor entendida como um método de promoção de abstinência, apenas uma parte da recuperação do indivíduo, devendo SEMPRE ser associada a seguimento ambulatorial posterior. O tratamento em ambulatório, de fato apresenta algumas vantagens sobre a internação, por ser menos custoso (possibilita ao serviço o tratamento de um maior número de dependentes), causar menor interrupção na vida do indivíduo (muito dependentes que procuram tratamento, por exemplo, continuam a manter atividades sociais e ocupacionais importantes, auxiliando na manutenção de toda sua família). A internação carrega também um estigma social importante, que é delegado ao indivíduo.

O dependente aceita mais fácil o tratamento ambulatorial e este modelo busca que o paciente lide com sua compulsão em seu "mundo real" (ao qual irá retornar muitas vezes despreparado após período de internação



O devido processo legal de internação psiquiátrica involuntária na ordem jurídica constitucional brasileira

5. O HABEAS CORPUS

habeas corpus é uma ação constitucional voltada para a libertação do "paciente" (utiliza-se esse termo técnico mesmo fora de um contexto de saúde) que esteja sofrendo lesão ou ameaça ao seu direito fundamental à liberdade de ir e vir.
Diz o art. 5º, LXVIII da Constituição Federal: "conceder-se-á habeas corpus sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou coação em sua liberdade de locomoção, por ilegalidade ou abuso de poder".
Evidentemente que essa ação constitucional também pode ser ajuizada quando o estabelecimento hospitalar não assegurar os direitos da pessoa portadora de transtorno mental, previstos na Constituição da República e no parágrafo único do art. 2º da Lei 10.216/2001.
Registre-se que o paciente mantém, mesmo internado involuntariamente, o seu direito à liberdade de religião e consciência, possuindo direito à comunicação, à proteção de seu patrimônio, à livre expressão e ao direito de ação, inclusive direito a voto, não estando interditado (art. 15, II da CF/88), nos termos da facultatividade instituída pela Resolução nº 21.920 do Tribunal Superior Eleitoral – TSE.
Esclarece Luís Roberto Barroso que: habeas corpus pode ser impetrado por qualquer pessoa física ou jurídica, e também pelo Ministério Público (...), em favor logicamente de pessoa física, única capaz de ver tolhida sua liberdade de locomoção. Sequer é exigida capacidade postulatória do impetrante. E, mesmo que ninguém o impetre, poderão os juízes e tribunais competentes expedir, de ofício, ordem de habeas corpus [19].
Embora tenha existido alguma controvérsia sobre o assunto, atualmente doutrina e jurisprudência admitem a utilização de habeas corpus contra atos de particular (diretores de clínicas ou hospitais psiquiátricos, por exemplo).
Como explica Heráclito Antônio Mossin o habeas corpus não se projeta exclusivamente no campo penal ou processual, porquanto é ele cabível também na área extra persecutio criminis, visando tutelar o direito de liberdade corpórea do indivíduo quando estiver sendo lesada ou ameaçada de sê-lo, abusivamente por qualquer pessoa, aqui se incluindo o particular [20].
No mesmo sentido, se pronuncia Fernando Capez, para quem prevalece o entendimento de que pode ser impetrado habeas corpus contra ato de particular, pois a Constituição fala não só em coação por abuso de poder, mas também por ilegalidade. ‘Por exemplo: filho que interna pais em clínicas psiquiátricas, para deles se ver livres’ [21].
O Superior Tribunal de Justiça também admite impetração de HC contra internação psiquiátrica involuntária irregular:
"Ementa
Habeas Corpus. Internação involuntária em clínica psiquiátrica. Ato de particular. Ausência de provas e/ ou indícios de perturbação mental. Constrangimento ilegal delineado. Binômio poder-dever familiar. Dever de cuidado e proteção. Limites. Extinção do poder familiar. Filha maior e civilmente capaz. Direitos de personalidade afetados.
- É incabível a internação forçada de pessoa maior e capaz sem que haja justificativa proporcional e razoável para a constrição da paciente.
- Ainda que se reconheça o legítimo dever de cuidado e proteção dos pais em relação aos filhos, a internação compulsória de filha maior e capaz, em clínica para tratamento psiquiátrico, sem que haja efetivamente diagnóstico nesse sentido, configura constrangimento ilegal.
Ordem concedida [22].
Assim, além das ações de indenização por danos morais e materiais causados pela internação psiquiátrica involuntária irregular, é possível o manejo de habeas corpus para assegurar o pleno exercício do direito fundamental de ir e vir da pessoa portadora de transtorno mental que tenha sido internada sem consentimento, em desconformidade como o devido processo legal acima delineado, ou que esteja sofrendo violação a seus direitos fundamentais constitucionalmente garantidos.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Talvez o maior erro político do movimento social em saúde mental, nele envolvidos os profissionais de saúde mental, organizações, os pacientes e familiares, tenha sido não conseguir enxergar na Constituição Federal de 1988 o marco jurídico potente e eficiente para a efetivação de todas as mudanças necessárias para o setor. É urgente uma "saúde mental constitucional", são cerca de 40 anos de atraso doutrinário e jurisprudencial com relação a inúmeros países.
A comunidade jurídica também tem participação nessa cegueira normativa, em que ainda hoje a saúde mental se mostra envolvida, pois todos, parece, até o momento, acreditam que a Lei Federal nº 10.216/2001 é o marco jurídico da saúde mental brasileira, ignorando a forma normativa da Constituição da República Federativa do Brasil, e a abertura principiológica que ela produz a cada novo dia, permitindo ao intérprete realizar como nunca a proteção e a realização dos direitos fundamentais das pessoas portadoras de transtornos mentais.
É, pois, da Constituição que deriva o devido processo legal de internação psiquiátrica involuntária e suas fundamentais conseqüências e garantias. Realidade constitucional fundante ainda ignorada pela magistratura, advocacia, Ministério Público, profissionais da área e pelo movimento social em saúde mental.
Mesmo ainda em potência, viva a Constituição! O tempo da saúde mental ainda está por vir. O tempo da saúde mental constitucional.
Fonte: JUS NAVEGANDI

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012


Meditação Diária Narcóticos Anônimos

9 de janeiro de 2012

Retribuindo a amabilidade de nosso padrinho

"Muitas vezes, nossos primeiros envolvimentos com os outros começam com o nosso padrinho."

Texto Básico, pág. 62

Nosso padrinho pode ser uma grande fonte de informação sobre recuperação, de sabedoria e palavras carinhosas. Eles fizeram tanto por nós. Desde os telefonemas, altas horas da noite, às horas gastas ouvindo nossos inventários de recuperação, eles acreditaram em nós e investiram seu tempo como prova disto. Carinhosamente e com firmeza, eles nos mostraram como ser honesto. Sua compaixão sem limites, em horas tumultuadas, nos deu força para continuar. Sua maneira de ajudar nos incentivou a buscar nossas respostas dentro de nós mesmos, e, como resultado, nos tornamos pessoas maduras, responsáveis e confiantes.

Embora nosso padrinho tenha dado generosamente e nunca tenha exigido nada em troca, existem coisas que podemos fazer para mostrar nosso reconhecimento. Tratamos nosso padrinho com respeito. Eles não são uma lixeira onde despejamos nosso lixo. Eles, assim como nós, também tem seu tempo de dificuldades e, algumas vezes, necessitam nosso apoio. Eles são humanos, têm sentimentos e apreciam nosso interesse. Talvez gostassem de receber um cartão postal ou um telefonema expressando nosso amor.

O que quer que façamos para retribuir a amabilidade de nosso padrinho irá acrescer em nossa recuperação pessoal, sem mencionar a alegria que daremos a ele.


Só por Hoje: Meu padrinho se importou comigo quando eu não podia cuidar de mim. Hoje farei alguma coisa agradável para meu padrinho.


O tempo não pára


domingo, 8 de janeiro de 2012

Drauzio Varellas - O que é mais fácil de largar, o crack ou o cigarro?


Esta entrevista merece uma profunda reflexão. É chocante ouvir que é mais fácil largar o crack do que o cigarro. Diante do quadro de histeria coletiva e da demonização do crack muita gente vai até xingar Drauzio Varela.  O que ele diz é a pura verdade e eu vou além do que ele disse. Conheci muitos viciados em cocaína e em crack que largaram o vício da noite para o dia, sem necessidade de internação, sem leitura de bíblia, sem pregações evangélicas, sem fanatismo religioso, sem ajuda de mulher e mulher sem ajuda de homem. São exceções à regra, talvez um milagre de Deus. São pessoas abençoadas e simplesmente largaram o que pode parecer um milagre. Isso põe em xeque muita coisa que gira em torno dos tratamentos e da recuperação. Será que existem organismos mais resistentes do que outros e por serem mais resistentes não sofrem crise de abstinência, nem padecem psicologicamente com a ausência dos químicos referidos? A seleção natural poderia explicar tais casos?

É um dado a mais para os estudiosos e para aqueles que sofrem com a crise de histeria desenvolvida pelos meios de comunicação social. No que concerne o crack, o uso e abuso é antigo e ninguém dava importância. Como esta droga alcançou os lares da classe média e da burguesia, estas classes deram inicio ao combate da droga. Mas fizeram muita burrice, cometeram exageros que serão, pouco a pouco, desmistificados pela ciência na medida em que os estudos, reflexões e análises avançem. Vale lembra de um mito: diziam que o crack viciava no primeiro uso. Isto é uma mentira que agride a inteligência. Que o vício se espalhou deixando de ser invisível é um fato. Mas o sistema era perverso, pois, enquanto droga de pobre, todos fechavam os olhos para as cracolândias da vida. Agora o medo foi difundido para os lares brasileiros e todos temem que esta droga invada seus lares e a radicalização, fruto da incomensurável ignorância que impera nos estudos de leigos, concernentes às drogas, leva a ações "cosméticas", como as que foram adotadas em São Paulo e no Rio de Janeiro. Não vão corrigir nada, os governantes apenas precisam mostrar trabalho e nada mais farão senão esconder o problema, retirando usuários das ruas. Uma farsa agressiva que não funciona.

O desespero leva familiares a cometerem loucuras, clínicas prometem a salvação e o máximo que elas pode fazer é livrar o usuário da abstinência e  desintoxica-lo. A partir dai o trabalho é tratar o lado psicológico e emocional, com médicos especialistas, incluindo familiares que devem se tratar. Não são apenas os usuários que cometem loucuras, a família, muitas vezes expõe a vida do familiar "problemático" de tal sorte que podem leva-lo à morte. Há muita coisa que precisa ser revista nos grupos de auto-ajuda. O mundo e o submundo das drogas mudaram e todos nós precisamos mudar e nos adequarmos a nova realidade, sem extremismos.

Para finalizar, algumas pessoas que eu conheço, e que são ensandecidas,que gostavam de Drauzio Varela, vão passar a execra-lo por ter dito que é mais fácil largar o vicio de outras drogas, do que o vício do cigarro. O alcoolismo e o tabagismo são vícios que gozam da licitude e, por serem socialmente aceitos, não são devidamente combatidos. Drauzio Varela fez muito bem ao iniciar, no Brasil, a campanha Brasil sem Cigarros. Espero que  tenha sucesso e que os seres que vivem apavorados com os fantasmas das demais drogas, voltem suas consciências e raciocínios para uma linha de equilíbrio que os levem a manter suas respectivas faculdades mentais livres da loucura que assola o país. Sabe, se eu fosse um extremado, internaria tantos alcoólicos quanto tabagistas, incluindo parentes. Mas eu que sou adicto, tenho meu ponto de equilibro ajustado e não radicalizo. O dia em que as pessoas decidirem encarar os problemas de modo civilizado e realista, tenho certeza de que muitas vidas serão salvas. Também é bom frisar que sem dialogo, sem compreensão, e sem a arma mais poderosa de todas que é o amor, andaremos de carroça nos tempos do trem bala. Mudemos a nós mesmos e muita coisa vai mudar. 

Eric Clapton - Tears In Heaven - Legendado



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sábado, 7 de janeiro de 2012

Inconfidências de residente

Chega o tempo da exaustão e a grande arma é a oração da serenidade como exercício espiritual. Dentro daquele lugar as pessoas se unem devido as fraquezas e vulnerabilidades e porque pessoas precisam de pessoas. Nas reuniões quase ninguém partilhava e as que partilhavam diziam as mesmas coisas todos os dias.A monotonia entediava. Todos os dias as mesmas caras, os mesmos hábitos. Nos quartos as primeiras conversas eram sobre o que levou cada qual àquele lugar.

Dos mais novos aos mais velhos havia um ponto de convergência: as esposas haviam proporcionado um grande desgosto a quase todos. Invariavelmente a conversa girava em torno de traições amorosas. Muitas vezes ocorriam toques de maldade como o de querer por chifre em cabeça de cavalo. Os relatos, se verdadeiros, são de doer.

Tem os que não guardam segredo e contam suas histórias com honestidade. Outros sequer sabiam o que os outro já sabiam. Noticia ruim corre logo. Era forçado ouvir. Tirar sarro com a desgraça alheia também era comum.

Durante as visitas mensais, haviam mulheres que ajudavam seus companheiros com fazem a diferença. Por amor uma criatura aceitou o plano de fuga do seu companheiro e o ajudou na fuga, esperando-afeto, carinho e palavras de conforto. Também podia-se notar a presença de mulheres frias, como era inevitável perceber a presença das calorosas.

Existem residentes que sequer recebem um telefonema da mulher e os caras só precisam ouvir um  "como vai você"? Existem os que recebem as esposas com frieza, quando deviam trata-las com amor.

Todos estão no mesmo barco e o sacrifício de viver confinado, como padres, nem sempre é por amor. Muitos chegaram ao local mediante sequestro. É difícil acordar e ser levado por estranhos a um local desconhecido. O melhor remédio para curar o trauma era rir do que aconteceu, do que se passou e aceitar. Haviam os inquietos e inconformados que logo, logo, planejavam fugas mirabolantes. Fui um deles. Minha fuga nunca aconteceu. Era possível. Mas logo me ocorriam pensamentos terríveis. Fugir de dia não dava. Só durante a noite. Mas correr por dentro do mato, com cercas de arame farpado, espinhos, aranhas e cobras venenosas. Em um dos aposentos foi encontrado uma cobra coral. Em outros aranhas caranguejeiras. Um dia tive um pesadelo louco: uma cobra rastejava em minha cabeça, por dentro dos meus cabelos. Depois não havia dinheiro, nem documento. Meus limites não me encorajavam e, ainda assim, o sonho de liberdade não morre. Não havia o desejo de usar, mas de se libertar e podem cair no lugar comum do discurso da abstinência.

Havia um companheiro, traumatizado, que vivia a indagar os residentes sobre como era a relação amorosa deles. Para ele, pouco importavam as histórias de cada um, todos eram cornos. O que satisfazia o cara era não ser ímpar. Ele casou seis vezes e foi chifrado por todas seis. Eis a razão pela qual vivia a esculhambar as mulheres, generalizando o que era particular e haja serenidade para atura-lo. Ele dizia que a primeira esposa havia ensinado tudo pra ele. Ela, a esposa dele, chegava tarde em casa e quando ele ia perguntar a razão da demora a esposa enraivecida dizia: - já vai começar? Tá pensando que eu sou igual as putas que você anda?  traficante de cocaína, ladrão de carga...
Era bem escandalosa e invertia os papéis. Segundo ele essa era uma técnica que sinalizava que a mulher era infiel. Outro sinal, segundo ele, era quando a mulher o evitava. Ele se achava especialista no ramo. Nesse vai e vem de conversas o cara descobriu que um companheiro pegou a mulher na cama com outro e, não sei a razão, pôs no cara o apelido de "meia-foda". O tio de "meia-foda",também residente , contava que o sobrinho tinha 10 anos de casado e durante sete anos vinha traindo o sobrinho. Pior, contou que a esposa era tão decadente que havia dado, para um cara, em troca de uma carteira de Derby. Baixaria em cima de baixaria.

A legislação não é seguida. Os residentes, na maioria, são desinformados. Direito de comunicação não havia. Tudo era controlado. Comunicar-se só nos dias certos. Visitas de mês em mês. Nada de médico plantonista e nenhum carro para prestar socorro. Qualquer reclamação era recebida como desaforo e a resposta, invariavelmente, era: - quem mandou você usar drogas? Aceitar era a palavra de ordem e tais palavras eram engolidas à seco. O pátio do claustro era "avenida" e o centro do mesmo era "a pracinha". Agora imagine o tamanho do claustro por onde os residentes zanzavam enquanto fumavam? A alimentação era complementada por "lanches" que os familiares de alguns residentes mandavam. Havia um sujeito pobre que tinha tudo do bom e do melhor. Outros não tinham nada a não ser desprezo e, talvez por este motivo, furtassem as merendas dos companheiros. Estado de necessidade? O colchão não era nada bom, mas haviam residentes que tinham dos bons. Travesseiros do mesmo modo. Quartos por demais quentes apesar de possuírem ventiladores de teto. No quarto uma televisão de quatorze polegadas, sem antena e que só pegava a globo muito me serviu para matar o tempo. Isso mesmo: matar o tempo, porque não há tratamento e a recuperação é individual. Só se mantem em recuperação quem conhece o programa dos doze passos e, se assim quiser. A maioria, por ter ingressado de modo involuntário, confessava pelos corredores: - quando sair a primeira coisa que irei fazer é usar. Havia muito rancor dentro de muitos residentes. Os apenas alcoólicos falavam abertamente que ao sair tomariam um belo porre. Não conheço dados estatísticos, mas tudo que é feito contrariando a vontade me parece que não surte resultados amigáveis. Particularmente, cuidei de mim.

Os primeiros momentos foram de enorme revolta. Quando me voltei para mim mesmo, focando-me e buscando diariamente manter minha serenidade, aceitando o que não posso mudar, melhorei. Mas, confesso que no inconsciente ainda existe revolta que devo trabalhar. Essa revolta, infelizmente, está centrada contra meus familiares e este é um dado que a família não gosta. É um dado que causa outro tipo de revolta, gerando a ciranda cirandinha que alimenta recaídas. Os companheiros que me perdoem, mas nesse lance da adicção há algo que transcende minha capacidade de compreensão. Ninguém merece se auto-destruir, suicidando-se lentamente. Não há culpados. Creio no poder superior porque creio no amor, porque acredito nas pessoas, mesmo aquelas que me provocaram qualquer espécie de desconforto. O princípio do perdão é soberano à minha personalidade. Creio na mão dupla e, mesmo quando a mão é única, tenho que aceitar. Voltei mais duro, mais firme e a lição que colhi é que além de me manter em permanente estado de recuperação, preciso tornar-me independente e levar minha vida sem incomodar quem quer que seja. Tenho que refazer e reconstruir muita coisa; tenho que proceder reparações quando chegar o momento. Não posso mentir negando que não tenho feridas na alma. Tenho e buscarei cicatriza-las com toda serenidade possível. Lima Barreto dizia que não haveria próxima vez... a próxima, para ele, que vivia no Rio de Janeiro, era o João Batista, que ficava próximo do hospício onde residiu. 

Em tudo quanto escrevi aqui não há nada de pessoal contra quem quer que seja. Gostei de todos com quem convivi durante 2 meses e 15 dias, adictos e profissionais que cumpriam suas funções. Sabe que tenho saudade de todos? mas não penso em voltar. Há um ponto de exaustão que descobri em mim e este ponto, se ultrapassado, pode significar uma regressão. Também devo salientar que a Dona do local em que estive  é simpática, atraente, bonita, prestativa. Chato é que ela colocou na cabeça a idéia de que é possível vencer pela força, não é só pelo lucro. Ressalto que no lugar não ocorriam torturas nem maus tratos, só me incomodava ver os caras serem dopados com "danoninho". O grande lance é que ela não sacou que o modo voluntário de internação é que funciona e que não é o longo tempo que irá recuperar quem quer que seja. Após longos períodos, se tudo no mundo de fora der certo, é possível obter bons resultados, mas pelo que vivenciei, só funciona pra quem quer e não pra quem pode. Chato escrever estas coisas, mas talvez alguém tire algum proveito.  

Oswaldo Montenegro - Metade



Hospícios - local de endoidecer gente sã?

Guardo na lembrança o nome de três companheiros de adicção que terminaram sendo internados em hospícios, na vã tentativa de recuperarem-se das drogas. Antes de serem internados gozavam de perfeita saúde mental. Nunca praticaram qualquer ato que pudesse ser considerado ofensivo às pessoas e a sociedade. Eram inofensívos, mas preocupavam e incomodavam seus respectivos familiares.
Evidente que depois de usarem cometiam loucuras que, se contadas seria risíveis. Um deles tomava comigo dois litros de vinho Cantarelli para potencializar o efeito de uma outra droga. F.D. venceu um concurso de melhor canção, em um festival, e gravou um compact disc no Rio de Janeiro, onde se envolveu no mundo artístico. Era difícil fazer sucesso na cidade maravilhosa. Certamente F.D. frustrou-se e mergulhou no uso de uma droga mais pesado. Caiu e foi preso no Perú por porte ilegal de droga. Cumpriu a pena e voltou à sua cidade natal. Sinto com tristeza o que fizeram com ele. É melancólico saber como funcionam estas casas manicomiais, principalmente quando se é lançado nos pavilhões dedicado aos pobres. F.D. morreu e soube do óbito dele por acaso. Era primo da minha esposa. Considerava-o um maluco beleza. O pai era alcoólico e morreu neste estado.

Outro que era "são" e foi lançado no inferno a pretexto de deixar a marijuana foi R. P. Não deu para entender quando ele reapareceu louco, embora soubesse o nome de todos os seus companheiros. Falava-se que não foi a droga que o endoideceu, mas a paixão dele por uma mulher. Certa feita o encontrei e ele me mostrou o conteúdo de um pacote que carregava: centenas de pílulas que eram ministratadas no hospício em que esteve internado. Um certo dia ele sumiu. Desapareceu do mapa. Ninguém sabe, ninguém viu. Hoje fico a imaginar qual deve ter sido o "tratamento" que o mesmo recebeu e, junto-me a todos os que exigem mudanças e humanização neste lugares em que gente sã endoidece. Sei que em muitos casos os familiares imaginam que estão fazendo o melhor possível e o resultado é um desastre.

Outro que me recordo era um rapaz de boa índole, vindo do interior. Devido ao pequeno volume da cabeça apelidaram-no como "CABECINHA". O nome dele verdadeiro era J.D.C. Gostava de me fazer companhia. Era desinibido e achava que - em festinhas classe média - todas as garotas estavam de olho nele. Não perdia tempo e tirava as mais vistosas pra dançar, enquanto eu ficava com minha timidez de vacilão. Ele não se dava totalmente bem, mas só o fato de dançar coladinho com belas garotas já era uma vantagem. Naquele tempo tínhamos em comum a "Mary Jane". Ele tinha uma fixação por uma certa Ana Júlia que ele dizia ser namorada dele. Ela não era, mas na loucura dela, sim. Fora essa anormalidade comportava-se direitinho. Que figura este camarada que era usado por meu pai como informante dele. Meu pai sabia mais da minha vida do que eu próprio. Um dia soube que ele havia sido internado em um hospício. Ele ficava na ala dos pobres. Certo dia fugiu e com ele carregou um pacote de remédios, tal qual o que me foi mostrado por R.P. Tempos depois ele aparecia desajuízado. A mãe, desgostosa, não mais o queria no lar dela. Ela era uma renomada parteira e numa cidade do interior ter um filho maconheiro era o fim do mundo. Triste fim para "Cabecinha". A última vez que o ví foi no meu trabalho. Lá chegou sujo, tal qual um mendigo, sem camisa, de bermuda e pés no chão. Eu nada podia fazer por ele. Ainda apresentava sinais de sanidade. Te-lo recebido no trabalho, me expondo, teve um alto custo, mas não reneguei o amigo. Não sei o seu fim dele. 
Hoje eu diria que "escuridão já vi pior, de endoidecer gente sã". Até quando as coisas vão funcionar à moda antiga, nos tempos dos choques elétricos, castigos, maus tratos, em lugares que deveriam estar fechado pela saúde pública. Quanto mal é feito em nome do bem. Quantas almas mortas andam enclausuradas e esquecidas nesses antros? 

E o que dizer de mim e de tantos outros que não estiveram em hospícios, salvo que nos sacrificamos em nome do amor e corremos em busca da nossa recuperação. Acho que fui ao inferno, protegido como Dante e de lá sai para contar estas abobrinhas.

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