segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Amando um dependente Químico

Um rapaz, com seus trinta e poucos anos, branco, de estatura baixa, de família abastada, deixou o emprego e buscou internar-se, voluntariamente, em uma "clínica". Fomos convivendo e, na clausura do quarto, batíamos papo sobre nossas vidas, nossas angústias, sobre a saudade que tínhamos de nós mesmos, da saudade dos nossos familiares quase todos ausentes. Éramos três no mesmo quarto. Um era advogado que nos provocava momentos de descontração devido às confusões que fazia, fruto de falhas na memória. Havia em todos nós um sentimento profundo de dor e desgosto. Conjecturávamos sobre nossas famílias. Sentíamos muito com o esquecimento e o desprezo com que éramos tratados. A ausência de visitas e de ligações telefônicas. Era lugar comum o pensamento de que fomos - eu mais o advogado - postos naquele lugar, supostamente para sermos "tratados" e o tratamento consistia no come-e-dorme. Tivemos momentos de rara felicidade, quando recebíamos alguma ligação telefônica. Dois filhos me ligavam e me davam alento. Mandaram livros e foram estes livros que me deram suporte para resistir aquele sistema prisional. 

O sentimentos dos três - e da coletividade - era o de estarmos sepultados vivos, enquanto oferecíamos paz, sossego e tranquilidade a nossas respectivas famílias. Cada caso era um caso, mas havia essa convergência de pensamento. Éramos incômodos e, assim, as famílias se viam livres de problemas e preocupações. Salvo F., eu e R., fomos apanhados de surpresa e lançados em uma instituição, queiram, ou não queiram, carcerária. Achavamos impressionante  o elevado grau de "inteligência" e de civilidade, que denotava uma mentalidade familiar, surpreendentemente triste. 

A realidade de F. era a de que não tinha mais para onde  ir. Era um rejeitado pela desinteligência familiar, vivendo a crise de confiabilidade, ou, quem sabe, pelo que chamam de intolerância de codependentes que ignoram tal condição. Rapaz de família rica submetido à triste condição de maior abandonado. Minha situação era a de buscar minha recuperação, mas sabia que tantas coisas aconteciam lá fora, que por serem muito recentes, não merecem comentários. Sei que incomodaria e não é esse meu propósito. Minha intenção é abrir os olhos dos "cegos"que não aceitam enxergar os próprios erros, os exageros, os abusos e a falta de inteligência para solucionar problemas equacionáveis. A vida está cheia de bons exemplos de pessoas que conseguiram se recuperar, dos mais pobres, aos mais ricos, incluindo os que alcançaram a fama. Nada está perdido. Mas não vou chover no molhado. O tempo haverá de mostrar que não há mal que sempre dure, encurtando o dito popular. Minha perspectiva era a de reconquistar a família e me desvencilhar de tudo que pudesse me levar pelas veredas da morte e eu rezava muito. Devorava livros, como "Casagrande e seus demônios". Lia e lia porque fora disso era o eterno come-e-dorme. 

Não havia monitores para sacanear e, verdade seja dita, podíamos falar todas as verdades que desejássemos a respeito de tudo. Não fui mal tratado. Tanta a família, quanto eu, desembolsamos uma grana. Tinha que ter, pelo menos o meu cigarro, vez por outra uma coca-cola e algumas coisas mais, como remédios e até duas pizzas. Eu lutei e tinha planos de novas fugas surpreendentes  e que seriam definitivas até um certo tempo. Não aceitava viver naquela cripta que o quarto simbolizava. Ali eu era apenas um morto-vivo, dentro de um cemitério de humanos com sérios problemas de natureza psíquica, física e espiritual. Meu direito à liberdade, para mim, é mais sagrado que o direito de defesa. Enquanto isso meditava, rezava, pedia a Deus minha liberdade, que aconteceu. 

R. ficou só. F. saiu antes de mim. Soube que havia arrumado um emprego ruim, mas não havia outro meio, salvo esperar que a mãe chegasse da Suiça, onde residia, e o levasse com ela, para o exterior.  A possibilidade de R. sair - para mim - era remota.  Sinto o sofrimento dele, aquele aperto no coração, o sofrimento do castigo imposto, como uma punição. A família sabe que ali não há tratamento algum. 

Vou finalizando, pois é tarde. E, tudo quanto fui escrevendo neste texto tem a ver com o que  eu queria dizer sobre codependência e que foi maravilhosamente escrito no blog AMANDO UM DEPENDENTE QUÍMICO. Gostaria de publicar parte do texto deste blog para ver se familiares, de qualquer dependente, consegue ler e compreender alguma coisa. Eu mudei e gostaria que todos ao meu redor mudassem e eu mudei para melhor.

Estou cansado e já passei da hora de dormir. Espero que me compreendam e busque, cada qual, suas respectivas melhoras. Qualquer um pode vencer o vício, então não custa nada estender uma mão para ajudar quem sofre nas garras da adicção. 



sábado, 23 de novembro de 2013

REFLEXÕES DIÁRIAS, Alcoólicos Anônimos


23 de Novembro de 2013

LEVANTE A CABEÇA PARA A LUZ


“Acredite mais profundamente: Levante a cabeça para a Luz, ainda que no momento você não possa ver.”

NA OPINIÃO DO BILL
p. 3

Num domingo de outubro, durante minha meditação matinal, olhei pela janela a árvore de freixo no pátio da frente. Uma vez mais fui vencido pela sua magnífica cor dourada! Enquanto olhava com admiração a obra de arte de Deus, as folhas começaram a cair e, dentro de minutos, os galhos estavam nus. A tristeza me assaltou quando pensei nos meses de inverno à frente, mas enquanto estava refletindo no processo anual do outono, a mensagem de Deus apareceu. Como as árvores, despidas de suas folhas no outono germinam novas flores na primavera, eu, despojado de meus modos compulsivos e egoístas removidos por Deus, posso florescer como um sóbrio e alegre membro de A.A..

Obrigado, Deus, pela mudança das estações e por minha vida em mudança contínua.

REFLEXÕES DIÁRIAS, p. 336

A vontade de Deus


A vontade de Deus
"O alívio de 'entregar a Deus' ajuda-nos a desenvolver uma vida que vale a pena viver." Texto Básico, 
p. 30 

Na nossa adicção ativa, tínhamos medo do que poderia acontecer se não controlássemos tudo à nossa volta. Muitos de nós inventaram mentiras elaboradas para proteger o nosso uso de drogas. Alguns de nós manipularam toda a gente numa tentativa frenética para conseguir qualquer coisa que nos permitisse usar mais drogas. Alguns de nós foram bem longe para evitar que se falasse de deles, pois poderiam descobrir as nossas mentiras.

Sofremos para manter a ilusão de controle sobre a nossa adicção e sobre as nossas vidas. Nesse processo impedimo-nos de experimentar a serenidade que vem quando nos rendemos à vontade de um Poder Superior. 

Na nossa recuperação é importante largarmos a ilusão de controle e rendermo-nos a um Poder Superior, cuja vontade para nós é melhor do que qualquer coisa que possamos comandar, manipular ou projetar para nós. 

Se virmos que estamos a tentar controlar os resultados, e sentirmos medo do futuro, podemos meter ação para inverter essa tendência. Vamos ao nosso Segundo e Terceiro Passos e olhamos para aquilo em que viemos a acreditar sobre um Poder Superior. 

Será que aceitamos, realmente, que esse Poder pode cuidar de nós e devolver-nos à sanidade? 

Se sim, poderemos viver com todos os altos e baixos da vida - os desapontamentos, as mágoas, os encantos, e as alegrias. 

Só por hoje: Vou render-me e deixar que a vontade do meu Poder Superior se manifeste na minha vida. Vou aceitar a dádiva da serenidade que esta rendição me traz.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Filosofia da involuntariedade


Transcrevemos trecho de um dos palestrantes do Seminário Internacional, Dr. Massimo Barra, realizado pela Comissão de Seguridade Social e Família em Brasília nos dias 5 e 6 de julho de 2010. 

"Para ele, (Dr. Massimo Barra) num ambiente social em que a droga é o diabo, os toxicodependentes, criminosos ou pecadores, viciados sem redenção, pode haver políticas nas quais se justifique a violação dos direitos humanos fundamentais com o objetivo de ajudar uma pessoa a abandonar a droga. Familiares, amigos e terapeutas se esforçam para piorar a qualidade de vida do toxicodependente, para acelerar o momento em que ele se arrependerá dos seus pecados e ação parlamentar aceitará cada tipo de punição com o objetivo de reencontrar uma nova vida sem Drogas."

Para nós, é injustificável a adoção de políticas de tal natureza, em um mundo civilizado. A inteligência humana não absorve tamanho desrespeito, embora seja este o pensamento que norteia o funcionamento da maioria das "Clínicas Involuntárias". É algo inconcebível e revoltante e essa mentalidade criminosa, que viola os direitos humanos e não redime ninguém. Os resultados, de tal tratamento, não são nada bons. É preciso evoluir!

Ponto culminante


O ponto culminante do debate foi extraordinário. A mesa era composta por autoridades que assumiam posicionamentos retrógrados, no que concerne a questão das drogas. Esperava-se coisa melhor, ao menos alguém que se manifestasse como um ser humano, falando entre humanos, sobre uma questão que exige de todos nós humanidade. Falava-se em repressão, punição, criminalização, que o debate se transformou em uma droga pavorosa.

O eixo do debate modificou-se e caiu no terreno de quem financiava o tráfico. Em um dado momento, alguém, da exausta platéia, seriamente indagou a um debatedor palestrante, nitidamente conservador - e a pergunta me parecia ter um sentido arrasador, embora parecesse um mero deboche - : 

"Quem surgiu primeiro, a droga, ou o usuário?". 

Sem que tivesse chance de responder, um jovem assistente se antecipou, levantou-se,com presença de espírito, gracejou e respondeu, bem alto: 

- Foi o traficante! 

O barulho ensurdecedor das risadas antecipou o fim do debate. 







terça-feira, 19 de novembro de 2013

Onde estão os problemas?

"Temos que saber como as famílias recebem o seu querido membro usuário e quais as dificuldades que ela tem tido para encaminha-lo. Onde estão os problemas? Isso vai trazer algumas realidades que não conhecemos ainda, apenas estimamos que existem."
General Paulo Roberto Yog de Miranda Uchoa


Mente aberta, boa vontade e honestidade de Antônio Nery Filho


TEXTO PUBLICADO 
por Antonio Nery Filho, em 6 de maio de 2013.

QUE DEUS NOS AJUDE


Não raras vezes me opus ao que parecia ser o senso comum sobre as drogas e seus usos. Há muitos anos, declarei minha oposição ao modo como os usuários de maconha eram (des)tratados. Mais recentemente, discordei publicamente em evento internacional promovido pela Senad, em Brasília, da fórmula “crack e outras drogas”, onde um produto grave, é verdade, mas de insignificante alcance se considerado frente a outros agravos, ocupava o lugar do álcool, de histórico reconhecimento como um dos mais sérios problema de saúde pública no mundo ocidental. Desde então recusei-me a participar de qualquer evento que colocasse o crack em evidência, por não querer contribuir para fortalecimento de uma falsa verdade, socialmente construída, e sustentada por uma mídia largamente desinformada ou defensora de interesses comerciais. Em São Paulo, no final de abril deste ano, aceitei convite do Professor Elisaldo Carlini (CRR/Cebrid/Unifesp), para participar de Simpósio sobre Redução de Danos e crack. Por que a exceção? Porque precisava reafirmar minha velha posição, encontrar profissionais sérios e de larga experiência na atenção aos usuários de substâncias psicoativas e seus familiares; recusar publicamente, mais uma vez, a política míope, medíocre, que o Parlamento Brasileiro quer nos impor, longe de tudo que as ciências sociais, humanas e da saúde produziram ao longo das duas últimas décadas, e apoiar o Deputado Paulo Teixeira em sua tenaz resistência. Em audiência pública na Câmara dos Deputados, promovida pela Comissão responsável pela proposta de alteração da atual Lei de Tóxicos (11.343/2006), pude avaliar a dimensão do retrocesso que nos aguardava. A proposta do Deputado Osmar Terra, é o cataclisma anteriormente anunciado. Contudo, não são os deputados evangélicos, ou os deputados proprietários de comunidades terapêutica que me inquietam mais. Cinicamente, penso que estão defendendo seus interesses. Inquieto-me, sobremodo, com os usuários e seus familiares pela pequena ou quase nula possibilidade de serem ouvidos; me inquieta a alma “o silêncio dos inocentes” que nunca tiveram de cuidar de um filho, de um marido, de um amigo-quase-irmão, envolvidos com uma ou mais drogas, legais ou não, seja como experimentador, usuário eventual ou dependente; perturba-me uma classe média acomodada em casas protegidas (ma non troppo) por câmeras, grades e vigilantes. Dói-me, profundamente, a “cegueira branca” de que falava Saramago em seu Ensaio Sobre a Cegueira, que acomete, epidemicamente, a quase todos, qualquer que seja a cor, o credo ou a classe social. Por tudo isto, desejo que o Ministro da Justiça e o novo Secretário de Políticas Sobre Drogas, Defensor Público, tenham olhos para ver, ouvidos para ouvir e a sensibilidade indispensável para cuidar da coisa pública, no seu sentido original (rex publica), dando ao Manifesto assinado pelos Centros Regionais de Referências das Universidades Federais, a importância devida, porque representa, no mínimo, outra versão da sociedade brasileira. 

Por oportuno, anexo aqui o texto do psiquiátra Luís Fernando Tófoli, professor da Unicamp, e publicado na Revista Carta Capital em 17 de abril próximo passado, para esclarecimento dos que ainda duvidam:

Em suas manifestações públicas em relação ao projeto de drogas que redigiu, o deputado Osmar Terra (PMDB-RS), médico e ex-secretário de Saúde de seu estado, tem sido profícuo ao citar dados. Em uma declaração ao jornal O Globo, ao criticar o viés “ideológico” daqueles que objetam contra seu projeto, não hesitou em dizer que “cada parágrafo” dele seria “baseado em evidências científicas”.

Dados científicos são frequentemente incompletos, sujeitos a contingências metodológicas e difíceis de interpretar. A própria construção do que é uma evidência científica e a decisão de nortear políticas a partir delas são também opções ideológicas, embora os médicos não se deem conta disso. No século XXI já parece ser bastante claro que não existe Ciência absolutamente neutra, e que é na análise de estudos que apontam posições e resultados contraditórios que poderemos nos aproximar da realidade. Esse é, por excelência, o caminho possível no campo das políticas públicas sobre drogas.

O PL 7663/2010 de Osmar Terra – transformado no substitutivo do deputado Givaldo Carimbão (PSB-AL) – está longe de ser uma peça legislativa baseada em dados científicos inquebrantáveis. Para começar, o projeto parte da concepção de que a dependência química é uma doença cerebral que leva a alterações permanentes causadas pelas drogas, uma doença para a qual não existe cura e para qual o único tratamento possível é a abstinência. Essa premissa é desafiada na literatura científica recente, e certamente não pode ser tomada como uma verdade para todos os casos. Como explicar, por exemplo, os vícios que não envolvem substância psicoativa, como o jogo patológico? Ainda que essa concepção da dependência fosse assumida como correta, caberia examinar se o projeto de lei, a fim de amenizar o terrível sofrimento social causado pelas drogas, está suficientemente assentado em evidências científicas. Vejamos aqui algumas que foram ignoradas no processo de elaboração do PL.

Em primeiro lugar, o projeto faz uma grande trapalhada ao emaranhar dependência química com uso de drogas. A literatura mostra claramente que o contingente de dependentes das drogas ilegais mais comuns no Brasil é algumas vezes menor do que o número total de usuários. Políticas e eventuais medidas para estes grupos devem ser distintas. Ao misturar os conceitos, o projeto dá a chance, por exemplo, de que um usuário leve de maconha seja submetido a uma versão contemporânea da internação forçada apresentada no filme Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky.

Outra confusão feita pelo PL está na proposta de uma classificação das drogas por seu potencial de gerar dependência. A ideia é baseada em uma classificação feita pelo Reino Unido e não é delineada no texto legislativo, ficando para ser decidida posteriormente. Atualmente há críticas à própria classificação britânica, e um famoso estudo publicado na respeitável revista científica Lancet colocou em cheque a própria noção de que seriam as drogas ilegais as mais daninhas para o indivíduo e a sociedade.

Não bastasse isso, o projeto ainda aumenta a pena para tráfico de drogas, sem distinguir usuários de traficantes de forma objetiva. Considerando o desproporcional aumento de apenados por tráfico no Brasil dos últimos anos – muitos deles com um perfil muito mais próximo de usuários do que de traficantes perigosos – tomar uma medida como essa sem determinar critérios objetivos de distinção é bastante temerário, ainda mais se considerarmos que o próprio endurecimento legislativo pode ser confrontado. Por exemplo, na Europa, o consumo por adolescentes é menor em países onde há menores restrições para o porte e uso pessoal de drogas. A resposta que o deputado Osmar Terra tem dado – que é o de que os “aviõezinhos” iriam carregar somente a quantidade permitida para porte e que “ninguém mais vai ser preso” – não é condizente com os dados do Observatório Europeu de Drogas e Dependência, que mostra que em países que se tornaram menos rigorosos com o uso e porte de drogas, as prisões por tráfico não diminuíram.

O autor do projeto já disse que as ações de consultório na rua – proposto como uma das alternativas às duas únicas formas de tratamento presentes no PL, a internação compulsória e o acolhimento voluntário em comunidades terapêuticas – não têm evidência de efetividade. Pode ser que o enfoque das provas científicas feito pelo deputado revele também um viés ideológico, já que o mais respeitável repositório de Medicina baseada em evidências, a Biblioteca Cochrane, indica que não há provas suficientes para apoiar o modelo das comunidades terapêuticas no tratamento da dependência química. Além disso, segundo afirma Gilberto Gerra, do Escritório das Nações Unidas para o Crime e Drogas, também não há evidências que justifiquem o uso de internações forçadas a não ser em situações críticas de risco de vida e quando outras tentativas não tiverem dado certo – o que, aliás, já determina a atual lei brasileira que dispõe sobre os tipos de internação psiquiátrica.

Há muitos outros pontos problemáticos – como o financiamento de entidades religiosas, o cadastro de usuários de drogas, as formas estranhas de regulação de um sistema de tratamento paralelo ao Sistema Único de Saúde, só para citar alguns. Num projeto tão questionado – rejeitado ou fortemente criticado por notas técnicas do Governo e por ONGs, por pareceres de entidades como a Fundação Oswaldo Cruz, o Instituto dos Advogados Brasileiros e o Conselho Federal de Psicologia, e até pela opinião de políticos de posições opostas na arena eleitoral como o deputado Paulo Teixeira (PT-SP) e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) – a presença de evidências científicas que contradigam seus parágrafos deve ser mais um elemento para, no mínimo, refrear o regime urgente em que o projeto tramita e, no limite, sepultá-lo em definitivo na busca de respostas mais consensuais.

Mas, no Brasil, onde “política baseada em evidências” se confunde com “evidências baseadas em política” e a mídia – com honrosas exceções – ajuda mais a embaralhar e estigmatizar a questão do que estimular o debate qualificado, é bem possível que as evidências sejam soterradas pela urgência política vinculada ao atual projeto em tramitação. Aguardemos para ver o que os legisladores brasileiros têm a responder diante deste projeto que representa um conjunto de retrocessos míopes à pesquisa científica e às reais e sérias demandas de cuidados que a questão do uso problemático de substâncias impõe a este país”.




REFLEXÕES DIÁRIAS - Alcoólicos Anônimos

Terça-feira, 19 de Novembro de 2013

EU ESTAVA CAINDO RÁPIDO

Nós AAs somos pessoas ativas, desfrutando da satisfação de lidar com as realidades da vida... Portanto, não é de se estranhar que, com freqüência, façamos pouco caso da meditação e da oração séria, como não sendo coisas de real necessidade.

OS DOZE PASSOS E AS DOZE TRADIÇÕES, 
p. 85

Eu estava escorregando para fora do programa já há algum tempo, mas, foi preciso a ameaça de uma doença terminal para me trazer de volta e, particularmente, para a prática do Décimo Primeiro Passo de nossa abençoada Irmandade. Embora tivesse quinze anos de sobriedade e fosse ainda muito ativo no programa, sabia que a qualidade de minha sobriedade caíra bastante. Dezoito meses mais tarde, um exame revelou um tumor maligno e o prognóstico de morte certa dentro de seis meses. O desespero se instalou quando me registrei em um programa de reabilitação, após o qual sofri dois pequenos ataques que revelaram dois grandes tumores no cérebro. Enquanto ia atingindo novos fundos de poço, eu me perguntava por que isto estava acontecendo comigo. Deus permitiu que eu reconhecesse minha desonestidade e que me tornasse capaz de aprender novamente. Milagres começaram a acontecer.

Mas basicamente reaprendi o significado total do Décimo Primeiro Passo.
Minha condição física melhorou dramaticamente, e minha doença é insignificante, comparada com o que quase perdi.

REFLEXÕES DIÁRIAS, p. 332

Meditação do Dia - Narcóticos Anônimos

Terça-feira, 19 de novembro de 2013

A linguagem da empatia 

"... o adicto podia encontrar, desde o início, toda a identificação necessária para se convencer de que podia manter-se limpo, através do exemplo de outros em recuperação há vários anos." 
Texto Básico, p. 99


Muitos de nós fomos à primeira reunião e, por não ficarmos inteiramente certos de que NA seria para nós, arranjamos imensas coisas para criticar. Ou achávamos que ninguém tinha sofrido tanto como nós, ou então que não tinham sofrido o suficiente. Mas, à medida que fomos ouvindo, começamos a ouvir algo novo, uma linguagem silenciosa que tem as suas raízes no reconhecimento, na crença e na fé: a linguagem da empatia. Por desejarmos pertencer, continuamos a escutar. Encontramos toda a identificação de que precisamos à medida que vamos aprendendo a compreender e a falar a linguagem da empatia. Para entendermos esta linguagem especial, ouvimos com o coração. A linguagem da empatia utiliza poucas palavras; sente-se mais do que se fala. Não prega nem dá lições de moral - ela ouve. Pode chegar a um adicto e tocar-lhe no espírito, sem dizer uma única palavra. A fluência na linguagem da empatia advém da prática. Quanto mais a utilizamos com outros adictos e com o nosso Poder Superior, melhor a compreendemos. Ela faz com que voltemos. 

Só por hoje: Vou ouvir com o coração. Com cada dia que passa vou tornar-me mais fluente na linguagem da empatia.

Crédito: NA de Portugal

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Vivendo e aprendendo - Um bom Diagnóstico

"Toda pessoa que consome drogas precisa, primeiro, de um bom diagnóstico, e esse diagnóstico não deve ser apenas psiquiátrico, médico, mas também um diagnóstico de sua estrutura social, educacional, do ambiente em que vive, pois uma pessoa que está sem código é uma pessoa que sofre uma tragédia"
Dr. Eduardo Kalina

Instituições Prisionais

"Um dos grandes problemas da humanidade que permanece não resolvido refere-se ao fato de não se sentir evolução nas instituições prisionais, desde a Idade Média até a era moderna"... "Em termos gerais, um consumidor de drogas é mais prejudicial a si próprio do que aos outros" 

Dr. Massimo Barra

domingo, 17 de novembro de 2013

Antonio Nery Filho - HUMANO


"As drogas, mesmo o crack, são produtos químicos sem alma: não falam, não pensam e não simbolizam. Isto é coisa de humanos. 

Drogas, isto não me interessa. Meu interesse é pelos humanos e suas vicissitudes."

Antonio Nery Filho








Narcóticos Anônimos - Meditação Diária


Domingo, 17 de novembro de 2013

"Não temos que usar nunca mais, independente de como nos sentimos. Todos os sentimentos acabarão passando."

Dói como nunca doeu antes. Você sai da cama depois de uma noite de insônia, fala com Deus e, mesmo assim, não se sente melhor. “Vai passar”, uma pequena voz fala. “Quando?” – você se pergunta à medida que anda de um lado para o outro resmungando e prossegue com seu dia.

Você chora em seu carro e liga o rádio a todo volume, para nem ouvir seus próprios pensamentos. Mas você vai direto para o trabalho e nem pensa em usar drogas.

Você está queimado por dentro. Justamente quando a dor se torna insuportável, você fica insensível e entorpecido. Vai a uma reunião e deseja estar tão contente como os outros membros parecem estar. Mas você não recai.

Chora mais um pouco e fala com seu padrinho/madrinha. Dirige-se para a casa de um amigo e nem percebe a bela paisagem, pois sua paisagem interior está desolada. Você pode não se sentir melhor depois da visita a seu amigo – mas, pelo menos, você não foi procurar um traficante.

Você ouve um Quinto Passo. Partilha em uma reunião. Você olha o calendário e vê que conseguiu ficar mais um dia limpo.

Então, um dia você acorda, olha para fora e se dá conta de que o dia está lindo. O sol brilha. O céu está azul. Você respira fundo, sorri novamente e sabe que realmente a dor passa.
Só por hoje

Não interessa como me sinto hoje, eu vou continuar em recuperação.

O dom do perdão


CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID

Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro

Em nossa vida de cristãos, para sermos dignos deste nome, há uma virtude que devemos cultivar sempre: a capacidade de perdoar. O autêntico perdão é dado gratuitamente, mesmo que o ofensor não o peça, como aconteceu com a humanidade, quando sacrificou o próprio Salvador, e este se dirigiu ao Pai, dizendo: “Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34).

A Bíblia acentua que o perdão é divino, quer dizer, tem um acento divinal, a assistência de Deus no ato de perdoar. Os próprios judeus e fariseus tinham consciência disso: “Ninguém pode perdoar pecados, porque só Deus tem poder para isso” (Mc 2,7). Perdoar é um dom que Deus nos dá, uma sensibilidade que Ele nos faculta, pela sua própria graça, para podermos promover a reconciliação com quem quer que seja, mesmo com aqueles aos quais, normalmente, negaríamos o nosso perdão.

Excluindo alguém do perdão, também o excluímos do nosso convívio. Portanto, perde-se o senso comunitário, o que é muito grave. Deus nunca condena, a não ser que a pessoa se auto-condene. Por exemplo, na excomunhão, não é a Igreja que exclui alguém, mas é a própria pessoa que abandona a comunidade dos fiéis de Cristo, por um ato desumano, desregrado e contrário à fé e à moral católica.

Além de divino, o perdão é um ato autenticamente humano, no sentido de sua nobreza e dignidade. Perdoar sempre é nobre. Vingar-se é um ato brutal, até mesmo diabólico, destrutivo em sua essência. Por outro lado, conceder o perdão não é fácil. É uma das iniciativas mais difíceis de se levar a cabo, especialmente, diante das injúrias graves. O que nos confunde é não conhecermos a verdadeira intenção de quem age. Então, sempre se perdoe, porque não se pode julgar a intenção antecipadamente. Diz São Tiago: “Não há mais que um legislador e um juiz: Aquele que pode salvar e perder. Mas quem és tu, que julgas o teu próximo?” (Tg 4,12).

O perdão é prova de amor ao outro. A pessoa que não ama, não perdoa. Mas, tanto o amor quanto o perdão, fundamentam-se no auxílio divino. Pela ação do Espírito Santo em nós é que nos vem essa força sobrenatural. O dom do perdão nos vem da própria cruz de Cristo. Ele, para efetivar isto, instituiu o Sacramento da Reconciliação, com Deus e com os irmãos.

Para recebermos o Sacramento do Perdão, nosso primeiro ato deve ser a análise profunda e sincera de nossos pensamentos, intentos, palavras e ações, mediante critérios objetivos do Evangelho. É o chamado exame de consciência. Depois, é preciso arrepender-se, isto é, sentir dor pelo que se fez de errado, e fazer o firme propósito de rejeitá-lo, definitivamente. Nesse propósito talvez esteja o maior problema, porque exige conversão, mudança de rumo: metanoia.

O melhor exemplo disto é o chamado Filho Pródigo, citado pelo Evangelho de São Lucas (cf. Lc 15,11-32). Aquele filho ingrato, malvado, fugitivo, que pediu ao Pai a herança e foi-se embora. Cometeu, assim, seu primeiro grave erro: afastar-se do Pai, perdendo o amor e a graça, que possuía na casa paterna. Dissipou o capital que tinha, a linda veste que trajava e, até, o anel que o Pai lhe dera, sinal de sua nobre condição. Rebaixou a própria dignidade, trabalhando na pior ocupação para um judeu: cuidar de porcos. Esses animais, considerados impuros segundo a mentalidade judaica e bíblica, representam a maior degradação que existe. Quantos vivem nessa miséria, indigna de seres racionais e belos, como os seres humanos foram criados para ser! Caem na violência, na droga e na devassidão, e perdem tudo o que têm de melhor. 

Mas, aquele filho, em boa hora, repensou sua situação e seu estado de vida. Enquanto isso, o Pai olhava aquela curva do caminho, onde seu filho desaparecera. Dia após dia, hora após hora, esperava o seu retorno, sem esmorecer. Esse amor do Pai, eternamente fiel, atraiu de volta o filho, reavendo-o sadio e arrependido, como conhecemos da história, narrada por São Lucas.

Esta passagem do Evangelho enfatiza, não tanto a imagem do pecador, mas a do Pai misericordioso, que nos aceita e nos perdoa. Entretanto, o próprio Jesus diz: “Perdoai, e sereis perdoados. Porque, com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos vós também” (Lc 6,37-38). Isto é muito sério. “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”, rezamos no Pai-Nosso.

O perdão divino é condicionado pela proporção em que concedemos o perdão aos outros. Por isso, devemos perdoar tudo e sempre. E não guardar ressentimento. Sem isso, não há perdão. O perdão esquece a ofensa feita, como Deus o faz. Ele não encobre o mal, conforme dizem alguns. Ele o erradica. Não esquece, simplesmente, mas elimina, até, o efeito do mal que praticamos.

O perdão é caminho para a conversão. Conversão é mudança de rumo. O pecado nos faz esquecer a finalidade, a meta dos nossos atos, para nos propor uma outra finalidade: desumana e contrária à caridade e ao respeito do próximo. Assim, a conversão é o redimensionamento de tudo, para dirigi-lo ao fim que nobilita toda nossa atitude e nosso modo de proceder.

Cabe, aqui, o esclarecimento de uma aparente contradição. Jesus nos fala sobre o pecado que não tem perdão: “Todo pecado e toda blasfêmia serão perdoados aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito Santo não lhes será perdoada” (Lc 12,31). Existe alguma falta que Deus não possa perdoar? O perdão só não é concedido àquele que não quer ser perdoado; ou que não acredita na misericórdia divina; ou, ainda, que acha seu pecado tão grande, a ponto de superar a capacidade de Deus perdoar. Ele esquece que Deus é onipotente. E, se de qualquer grãozinho de areia, Ele é capaz de criar um serafim santo, inocente e generoso, muito mais pode tornar reta uma linha que se entortou em nosso modo de proceder.

Aquele que desespera pode chegar ao desatino de tirar a própria vida, num ato fundamentalmente desordenado, salvo quando induzido por um estado psicológico totalmente doentio. O desapego à vida não significa abreviá-la, qualquer que seja o motivo. Só existe um desapego santificante: quando a vida é dedicada ao bem do próximo. Arriscá-la, em benefício de outrem, torna-se um ato heróico.

Estou convencido de que todo pecador, cujo agir leva a conseqüências graves para a comunidade, para a santidade da Igreja, e para a própria sociedade, essa pessoa não sabe o que faz. Evidentemente, é culpada pelas escolhas conscientes e livremente assumidas, mas não avalia o pleno alcance de seu erro. Talvez só venha a descobri-lo, quando for tarde demais.

Rezemos sempre pela nossa conversão, a exemplo de Jesus que, no auge da ignomínia e da injustiça que lhe impuseram na cruz, clamou: “Pai, perdoai-lhes, porque eles não sabem o que fazem”. Aquele foi um ato de amor infinito, derivado de um Coração completamente entregue a Deus e aos homens.

sábado, 16 de novembro de 2013

A LUTA CONTINUA

Faz bastante tempo que o editor deste este blog ficou como se fosse uma nau perdida, completamente a deriva, sem posts, sem nada. Perdemos contato!

Nós, que vez por outra somos convocados a cooperar, finalmente recebemos notícias de que nosso editor foi apanhado, de surpresa, por uma equipe de "resgate", que ele sempre denomina como grupo de SEQUESTRADORES.

Foi surpreendido e depois conduzido a uma "CLÍNICA INVOLUNTÁRIA", que, entre nós, sempre denominou, irreverentemente, como "cárcere privado". E tem um rosário de razões para pensar assim. Sem polêmicas!

Ele conseguiu a proeza em nos fazer chegar, através de um "sequestrado", recém saído do cárcere, um pedido de ajuda para que mantivéssemos o blog SÓ POR HOJE, em franca atividade, delegando-nos poderes para prosseguirmos a linha editorial que imprimia, sempre problematizando e levantando questionamentos, fundamentados, além de abrir espaço para quem deseje manifestar-se sobre a drogradição, em seus múltiplos aspectos. Não obtivemos maiores detalhes a respeito do mesmo, apenas que se encontra em um pseudo-tratamento, o que é fácil de entendermos, devido à compreensão e juízo que tem destes locais enfermos e manipulados por "empresários", além do fato dele considerar que, após a extinção dos manicômios, tais locais passaram a herdar, como fieis depositários, um imenso contingente de portadores de transtornos mentais, que são depositados e depois esquecidos, por familiares, que incorrem no crime de abandono de incapazes. Para ele, tais locais em que as trevas medievais dominam, a recuperação só ocorre para quem quer, independentemente do longo e exagerado tempo, e que é sem chances, para os que não conhecem os doze passos. Segundo ele, tudo o que for involuntário, nesse campo de luta, não merece verbas federais, estaduais e municipais e que tais locais sejam severamente inspecionados pelo Ministério Público e não apenas pela ANVISA.

Devidamente autorizados resolvemos abraçar a causa dele e, em reunião, resolvemos hipotecar ao mesmo, nossa solidariedade, publicada nesta página, enquanto informamos que iremos participar, na medida das nossas possibilidades, deste blog, que nos entretinha e não vai deixar de entreter-nos, pois não permitiremos que a chama da recuperação dele e de tantos outros adictos, se apague dos nossos corações. 

Como diz Ivan Lins, em composição popular: 

    "estamos mais vivos
 estamos na luta 
  pra nos socorrer".

Esta chama não vai se apagar, 
creiam em DEUS!



LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...