quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O que foi que me aconteceu ?


Estava cuidando da minha internação junto com uma filha, a quem prometia me internar. Estava decidido a cessar o uso de modo definitivo. Esta filha, devo contar, certa feita, entrou no meu quarto para dialogar comigo e eu estava muito louco. Apesar do meu estado, nunca fui agressivo e esta foi uma marca registrada durante todo o período de minha drogadição. Fui muito receptivo e tentei alegra-la, em vão.

Minha índole é pacífica. Na juventude, era diferente. Amadureci, só isso. Aprendi que quem briga não tem nada na cabeça. 

Voltemos a minha filha. Ela entra no quarto e me diz: - você não acha que está na hora de procurar ajuda? respondi : - claro que sim!  Ela disse: - então vou adiantar sua internação. Ponderei: - Filha, quero que me ouça. estou em uma situação delicada, que preciso resolver para depois internar-me em uma clínica voluntária. 

Existiam algumas opções boas, com ótimas referências. Não acredito na involuntariedade, principalmente no meu caso. Mas, em minha conversação com ela, percebi que ela me olhava de uma forma tristonha  e afetuosa. Brinquei com ela. Tentei disfarçar o indisfarçavel. Minha cara não me permitia mentir. Estava em uso! 

Os olhos dela me comoveram e prometi que tão logo tudo fosse solucionado, ligaria para ela, sem embromação. Selamos o pacto. Tinha que solucionar uns débitos contraídos em mãos de pessoas que não tem vinculação alguma com o tráfico e estava certo de que o empréstimo, que solicitei a uma instituição financeira, me seria creditado, em tempo. Não sabia que corretores brigavam pela obtenção de comissões e, sem saber, nesta briga do mundo da corretagem, fui sendo enrolado enquanto brigavam e assim foram protelando o deposito da importância solicitada. 

O tempo ia passando e minha palavra empenhada estava sendo posta em duvida. As pessoas a quem devia deram para buscar receber o que eu devia, sem entrar no mérito desses débitos. Não irei  julgar ninguém! 

Envergonhado evitava atender telefonemas. Enquanto isso já haviam se passado doze dias, quando uma senhora me ligou. Era uma corretora informando que meu crédito seria depositado dia seguinte. Pouco depois uma pessoa me ligou para cobrar e atendi e transmiti a noticia. Sentia-me aliviado. Pouco depois uma irmã apareceu, em casa, e fiquei conversando com ela por algum tempo. Contudo, temia que alguém quisesse me pegar à força para cobrar o que eu devia. Era uma premonição!

Meu estado era de apreensão. Andava preocupado e atento a tudo. Agora restava pouco. Era uma questão de esperar o dia amanhecer. 

Sem que eu soubesse, outras pessoas da família, ignorando o acordo feito com minha filha, haviam providenciado uma equipe de resgate para me apanhar. Quando saia do sanitario, após o banho, dois sujeitos me pegaram e me imobilizaram. Eu disse, assustado:-esperem ai, já consegui a grana, vamos conversar! Os caras, com pinta de matadores, não me davam ouvidos e foram me arrastando até me colocarem dentro de um carro preto. 

O carro arrastou e eu disse, agora é encarar a morte de cabeça erguida e silenciei. De repente o cara que ia no fundo, que me assombrava, disse, em tom de pergunta: -o que foi que você andou aprontando?  respondi com uma pergunta: -para onde estão me levando? e o cara falou em um local de desova. A pergunta dele me deixou entender que eles eram policiais, mas não sabia de que nível. O carro que eles usavam era um mercedes preto. tudo indicava que iriam me conduzir para um local de extermínio. Mas o que eles estavam fazendo, na realidade, era um sequestro-resgate e, desse modo me conduziam a uma clínica involuntária.

Que horror! Também pensava: e agora, como quitarei meus débitos? Quanto tempo terei que ficar aqui e isso ninguém dizia.. Era coisa entre seis meses a um ano, de cativeiro. 

Interiormente vivia um drama particular intenso e todos se lixavam pra mim. Dizia comigo mesmo, puta que pariu, fizeram uma merda comigo! O pior é que, quando vi a quantidade de grades, disse a mim mesmo:-estou em uma Alcatraz; Tô fodido! 

Sobre a clínica penso em falar depois. Fui conduzido a dormir em um local, dormitório coletivo, que depois fiquei sabendo, era denominado como "favela", ou "carandirú". Depois de comer alguma coisa, deram-me um remédio, indicaram-me a cama e, como quem tem que aceitar aquilo, deitei e dormi. 

Cedo todos acordam para o café. Antes, porém, as celas são abertas, retiram os cadeados e descemos para o café. Eu era o estranho no ninho. 

Logo fui procurado pelos "donos do pedaço". Queriam dinheiro para aqisição de drogas. "Aqui é como nos presidios", disseram-me. Nenhum conhecido! 

Depois de algum tempo, o proprietário me falou que existia um outro quarto, melhor e se eu quisesse mudar era só falar com o monitor(GAP). Na mesma hora pedi para examinar. Vi e gostei. Apressei-me e pedi a mudança imediatamente. No quarto apenas um senhor magérrimo, com lapsos de memória impressionantes. Antes nesse quarto do que no carandiru. Fiquei aliviado! 

Sem me dar conta, no segundo dia, os caras do "carandiru" estavam em festa. Não sabia, ainda ,que haviam me furtado quatro camisas de marca e com a venda delas, compraram drogas. Como conseguiam sair e comprar? essa é outra conversa que deixo pra depois. Foram os caras mais barra-pesada que já conheci. Periculosos, mas todos, no fundo, no fundo, sofredores e com uma alma boa. Ali, para eles era uma cadeia, lá fora era a liberdade e não a droga. Muitos, contudo, não tinham mais opção, senão viver em cativeiro por imposição familiar. Viraram pássaros engaiolados, com um canto dolorido de um sofrê...

Volto quando for possível e permitido!


Noblese Oblige


Este blog ficou inoperante por um longo período de tempo. Veio o natal e não tive como desejar, como gostaria, votos de um feliz natal aos leitores do mesmo. De igual modo não me foi possível desejar um feliz 2014, para todos. Peço, humildemente, desculpas e, ainda que tardiamente, desejo a todos tudo de bom. 

Faço este reparo, sem expor minhas razões. Também devo esclarecer que, dos blogs que tenho, um se encontra desaparecido.

Em outro tópico buscarei falar de mim. Por enquanto, contento-me em fazer aquilo que minha consciência ordena. Deixo um forte abraço para todos, enquanto anuncio que estou limpo vários meses. 

Tentarei lembrar há quanto tempo estou limpo. Também tratarei de contar algumas das minhas verdades, meu drama particular e a minha angústia. Deixo isso para um outro tópico. 

sábado, 28 de dezembro de 2013

Meditação Diária, Narcóticos Anônimos


28 de dezembro de 2013
Depressão

"Não estamos mais lutando contra o medo, a raiva, a culpa, a autopiedade ou depressão."
Texto Básico, p. 29


Muitos de nós como adictos ficamos deprimidos de vez em quando. Quando nos sentimos deprimidos, podemos ficar tentados a nos isolar. No entanto, se fazemos isso, nossa depressão pode se transformar em desespero. Não podemos nos dar ao luxo de deixar a depressão nos levar a usar.

Em vez disso, tentamos manter a rotina de nossas vidas. Damos prioridade máxima à frequência de reuniões e ao contato com nosso padrinho. Partilhar com outros nossos sentimentos nos ajuda a tomar conhecimento de que não somos os únicos que ficamos deprimidos em recuperação. Trabalhar com recém-chegado pode fazer maravilhas para o nosso estado mental. E o mais importante, oração e meditação nos ajudam a obter a força de que necessitamos para sobreviver à depressão.

Praticamos a aceitação e lembramos que sentimentos como depressão passarão com o tempo. Em vez de lutar com nossos sentimentos, nós os aceitamos e pedimos força para passar por eles.

Só por Hoje: Eu aceito que meus sentimentos de depressão não durarão para sempre. Falarei abertamente sobre meus sentimentos com meu padrinho ou outra pessoa que compreenda.

Fonte e crédito: http://csa-saopaulo.org/

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Casagrande e Seus Demônios

Levei uma noite inteira preso à leitura do livro "CASAGRANDE E SEUS DEMÔNIOS", escrito pelo próprio Casagrande e por Gilvan Ribeiro. O livro foi muito bem estruturado e, evidentemente, não contempla tudo o que Casagrande passou e viveu durante seu longo estágio no mundo da drogadição.

Ele, Casagrande, no curso da leitura, menciona o que denomino de "Bad Trip", como "surto psicótico".

É muito interessante conhecer um pouco do que ele vivenciou, em termos de "má viagem", no meu entendimento.

Pincei um trecho para enfatizar os efeitos que a droga é capaz de produzir na cabeça de um ser humano e, dessa forma, ajudando os não usuários em querer passar por experiência semelhante.

Usar é perder, todo adicto, que conhece o NA, sabe disso. Agora reproduzo o trecho, sui generis`, que me causou impacto:

“Eu tinha visões horríveis, tudo parecia muito real. Estava assustado pra caralho, via demônios pelo apartamento inteiro. Eram maiores do que eu, com dois ou três metros de altura. Alguns apareciam no quarto, outros na sala, e até uma imagem de mulher surgiu refletida na geladeira.

Aí comecei a ficar com medo de ir à cozinha, já não comia, nem me sentava no sofá, porque eu os via em todos os lugares, todos os dias, constantemente. Não falavam ou me ameaçavam, mas a simples presença deles era aterrorizante. Isso durou um mês, sei lá, um mês e meio”, conta o ídolo.

O pavor de se deparar com aqueles seres dos infernos o levava a desviar o olhar e a evitar qualquer tipo de contato. Por isso não chegou a guardar as feições de todas as criaturas. Em sua mente ficou registrada apenas a imagem de um deles: “O formato era de homem, só que muito maior. Os olhos, vermelhos, brilhavam. Tinha as orelhas grandes, o nariz também, a boca com os dentes caninos saindo pra fora”, descreve.

Atualmente, libertado das profundezas, Casagrande procura dar uma explicação racional para a loucura daqueles dias. “Eu entrei em surto psicótico pelo uso exagerado de drogas e privação de sono. Também foi uma coisa induzida pelas pesquisas que eu estava fazendo, na época, sobre demônios”, justifica.

(...)

Mas não eram somente os demônios que infernizavam a vida de nosso herói. Lembram-se daquela mulher que apareceu na porta da geladeira? Pois é, ele começou a cismar que fosse uma espécie de alma penada. Uma jovem morta naquele apartamento, antes de sua mudança para lá, que agora buscava algum tipo de redenção. “Vi uma imagem muito nítida dessa mulher e fiquei gelado dos pés à cabeça. Era uma garota, de 20, 22 anos, por aí, e eu não sabia se era real ou alucinação. A impressão foi de que ela estava atrás de mim, às minhas costas, com o reflexo na geladeira.”

Enquanto vivia esse pesadelo interminável, não parava de se drogar. A porção de heroína já havia acabado fazia algum tempo. Mas ele aplicava cocaína nas veias, cheirava pó, bebia tequila, tomava remédio para dormir, tudo junto. Com esse nível de alteração de consciência, a paranoia atingiu níveis cada vez mais alarmantes. Assim, convenceu-se de que o corpo daquela mulher encontrava-se escondido em algum lugar dentro do apartamento. E entregava-se à procura insana pelo suposto cadáver. Sempre com a companhia indesejável dos demônios. Em alguns momentos, pensou em pedir socorro. Mas não sabia a quem recorrer naquela situação tão vulnerável. Evidentemente, deixara de trabalhar como comentarista de futebol da TV Globo durante esse período. Não reunia a menor condição de sair de casa, quanto mais de botar a cara no ar em rede nacional. Fugia dos amigos, porque tinha certeza de que não seria compreendido. O mundo externo lhe parecia ameaçador, embora, ali, estivesse mergulhado nas profundezas do inferno. Se bobeasse, poderia ser internado como doido varrido. Fechado naquele universo sombrio, estava às raias da loucura mesmo."

Meditação do Dia - Narcóticos Anônimos

www.seveneightlife.com
Sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Deus poderia devolver-nos a sanidade
"O processo de vir a acreditar devolve-nos à sanidade. A força para agir vem dessa crença." 
Texto Básico, p. 29 

Agora que finalmente admitimos a nossa insanidade e vimos exemplos dela em todas as suas manifestações, podemos sentir-nos tentados a acreditar que estamos destinados a repetir esse comportamento para o resto das nossas vidas. Tal como achávamos que não havia esperança para a nossa adicção activa e que nunca ficaríamos limpos, poderemos agora acreditar que não há, tão-pouco, esperança para o nosso tipo particular de insanidade. Não é bem assim! Sabemos que devemos a nossa libertação da adicção ativa à graça de um Deus amantíssimo. Se o nosso Poder Superior pode fazer um tal milagre como o de nos livrar da obsessão de usar drogas, certamente que este Poder também poderá livrar-nos da nossa insanidade em qualquer das suas formas. Se tivermos dúvidas, basta pensarmos na sanidade que já foi reposta nas nossas vidas. Talvez nos tenhamos deixado levar pelos nossos cartões de crédito, mas a sanidade regressa quando admitimos a derrota e os destruímos. Talvez nos tenhamos sentido sozinhos e queiramos ir ter com os nossos amigos do passado. Em vez disso, visitarmos o nosso padrinho ou madrinha constitui um ato de sanidade. A insanidade da nossa adicção dilui-se no passado à medida que começamos a experimentar momentos de sanidade na nossa recuperação. A nossa crença num Poder superior a nós mesmos cresce à medida que compreendemos que, mesmo, o nosso tipo de insanidade não é nada perante este Poder.

Só por hoje: Agradeço ao Deus da minha concepção por cada ato de sanidade na minha vida, pois sei que constituem indicadores de que estou a ser devolvido à sanidade.

Fonte:NA-PT

Análise psicodinâmica dos três primeiros passos do Programa de 12 Passos de Narcóticos Anônimos


Miria Benincasa
Universidade do Contestado – Concórdia/SC (Brasil)

Resumo
O objetivo deste trabalho foi realizar uma leitura psicodinâmica dos três primeiros passos do programa de 12 passos de Narcóticos Anônimos. Os passos foram abordado isoladamente e foram apresentados seus benefícios através de uma analogia entre este programa e o processo psicodinâmico de desenvolvimento psicossexual e social. Os benefícios que o adicto adquire durante a participação do programa foram descritos aqui como recursos egoicos e maturidade emocional e social que vêm sendo adquiridos durante o desenvolvimento nos primeiros anos de vida. Este estudo se propõe a oferecer aos psicólogos que trabalham com o fenômeno da drogadição e possuem orientação psicodinâmica, alternativas teóricas para intervenção em modelos de tratamento que incluam o programa de 12 passos.

Palavras chave: Drogadição; Narcóticos Anônimos; Programa de 12 Passos

Psychodinamic analysis of first three steps of 12 Steps of Narcotics Anonymous Program
Abstract
The objective of this work was to carry through a psychodinamic reading of three first steps of 12 Steps of Narcotics Anonymous Program. The steps have been approached isolated and their benefits has been presented separately by an analogy between this program and the psychodinamic process of psychosexual and social development. The benefits that adicted acquires during the participation of the program have been described here as egoicos resources and emotional and social maturity that has been acquired during the development in the first years of life. The proposal of this study is to offer the psychologists who work with the drogadiction phenomenon and have psychodinamic orientation, theoretical alternatives for the intervention in treatment models that include the program of 12 steps.

Key Words: Drug adiction; Narcotics Anonymous; 12 Steps program

Analise psicodinámica de los tres primeros pasos del programa de 12 pasos de Narcóticos Anónimos
Resumen
El objecto de este trabajo fué hacer uma lectura psicodinámica de los tres primeros pasos del programa de 12 pasos de Narcóticos Anónimos. Los pasos fueram abordados isoladamente y tuvieron presentados sus beneficios a través de una analogia entre este programa y el proceso psicodinámico de desarroyo psicosexual y social. Los beneficios que el adicto adquiere durante la participación del programa dueram descritos aqui como recursos egoicos y maturidad emocional y social que vienen siendo adqueridos durante el desarroyo em los primeros años de vida. Este estúdio propone a los psicólogos que trabajan com el fenómeno de la drogadicción y poseen orientacción psicodinámica, alternativas teoricas para intervención em modelos de tratamiento que incluyan el programa de 12 pasos.

Palavras clave: Drogadicción, Narcóticos Anónimos, Programa de 12 Pasos

Apresentação

Este trabalho tem como objetivo realizar uma leitura dos três primeiros passos do programa de 12 passos de Narcóticos Anônimos a partir de um raciocínio psicodinâmico. Esta proposta foi baseada no interesse de investigar o processo pelo qual o drogadito se beneficia deste programa segundo uma coerência psicodinâmica, ou seja, transformando a linguagem original numa linguagem comum ao universo psicológico.

A leitura deste trabalho deverá ser iniciada a partir dos seguintes princípios: 1 - A análise realizada aqui considera que o drogadito esteja entrando em contato com o programa pela primeira vez, 2 - como a proposta do Programa de NA é manter este processo de recuperação por toda a vida, é sugerida uma leitura que corresponda á imagem de uma espiral, onde a cada recomeço do programa, novos recursos e mais eficientes vão sendo adquiridos, possibilitando, assim, um progressivo amadurecimento egóico.

Para uma melhor compreensão dos argumentos psicodinâmicos e da evolução de cada Passo, foram inseridas frases contidas no livro-base de Narcóticos Anônimos (1983) para ratificar e clarificar a idéia psicodinâmica que se expõe. Estas citações serão literais e serão identificadas pelas páginas no decorrer do texto. Inicia-se o estudo com a contextualização do quadro da drogadição através da exposição de algumas característica peculiares a este fenômeno seguindo a exposição de cada um dos Passos propostos pelo Programa.

Introdução

O adicto possui uma debilidade egóica que o torna incapaz de suportar a depressão, tendo que recorrer a mecanismos maníacos para sua sobrevivência. No entanto, "a reação maníaca só pode ter êxito com a ajuda das drogas, porque para a produção da mania se requer certa fortaleza egóica" que o adicto não tem (ROSENFELD, 1978). A repetição deste movimento com conseqüência satisfatória (êxito), ou seja, a manutenção de um estado maníaco e anulação (temporária) da angústia, promove uma debilidade cada vez maior do ego, pois seu repertório de defesa contra a angustia e a depressão, que já era pobre, vai se tornando cada vez mais ineficiente quando comparado ao recurso defensivo externo (droga). Este maior empobrecimento ocorre pelo fato do recurso droga provocar alívio imediato, não exigir adiamento da gratificação, capacidade de espera e elaboração de soluções mais eficientes, ou seja, não possibilita que o ego faça uso de seus recursos mais sofisticados. O que é estimulado, portanto, é o uso de "mecanismos de defesa de baixo nível" em detrimento a "mecanismos de defesa de alto nível" descritos por Otto Kernberg (1976). Os últimos vão ficando cada vez mais escassos na economia psíquica, promovendo um funcionamento cada vez mais regredido. É acionado, portanto, um modo de funcionamento primitivo (processo primário), a linguagem (entendida a linguagem como o modo de expressão no mundo) utilizada é a do princípio do prazer que, com a sistematização e progressão dos episódios tóxicos vai se tornando característica de personalidade, modo de funcionamento imperante. O processo secundário de funcionamento vai se tornando cada vez mais difícil de ser resgatado.

Percebe-se, portanto, que este processo, é um processo de escolha narcísica, ou seja, a escolha dele por um "ele melhor". Exemplificando este argumento com a literatura de NA (1983): "A parte espiritual de nossa doença é o total egocentrismo" (pág. 22). É a escolha do ego (por identificação projetiva) pelo ego ideal numa tentativa mágica de incorporação do ego ideal através de um objeto ideal (droga). Toma a si mesmo, seu próprio corpo (ego ideal) como objeto de amor (FREUD, 1914). Não há relação de amor com objetos externos. O objeto externo é usado para um gozo narcísico. Vemos identidade com esta leitura na literatura de NA (1983) onde se diz: "Nossa doença nos isolava das pessoas, a não ser quando estávamos obtendo, usando e arranjando maneiras de obter mais" (pág. 4), ou seja, o outro (como no bebê), era visto como instrumento de uso para gratificação. A "relação" com o outro era um meio e não um fim em si mesma. (Poderíamos aqui, pensar o porquê desta regressão a um modo de funcionamento tão primitivo, recorrendo à teoria de relações de objeto em Melanie Klein (1945), onde, na relação com o outro o bebê se frustra e, mediante a incapacidade de lidar com esta frustração, regride a um funcionamento já conhecido onde a gratificação predominava. No entanto, refletir sobre a causalidade deste fenômeno nos distanciaria da proposta inicial. Deixemos, então estas reflexões para um outro momento).  Leia mais

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Narcóticos Anônimos - Meditação Diária


Quinta-feira, 26 de Dezembro de 2013

Poder infalível

À medida que aprendemos a confiar neste Poder, começamos a superar o nosso medo da vida.
Texto Básico, p. 26

Somos pessoas acostumadas a colocar todos os nossos ovos numa só cesta. Muitos de nós tínhamos uma droga de escolha. Confiávamos nela para poder passar cada dia e tornar a vida suportável. Éramos fiéis àquela droga; de fato nos submeteríamos a ela sem reservas. E aí ela se virou contra nós. Fomos traídos pela única coisa da qual sempre dependemos, e essa traição nos deixou desamparados.

Agora que encontramos as salas de recuperação, podemos ficar tentados a confiar em outro ser humano para satisfazer nossas necessidades. Podemos esperar isto de nosso padrinho, nosso namorado ou de nosso melhor amigo. Porém, depender de seres humanos é arriscado. Carecem de perfeição. Podem estar de férias, dormindo ou de mau-humor quando precisamos deles.

Nossa dependência deve se apoiar em um Poder maior do que nós. Nenhuma força humana pode restaurar nossa sanidade, cuidar de nossa vontade e nossas vidas, ou estar completamente disponível e amorosa sempre que tivermos necessidade. Depositamos nossa confiança no Deus de nossa compreensão, porque apenas esse Poder jamais nos faltará.

Só por hoje eu depositarei minha confiança em um Poder maior do que eu mesmo, pois só esse Poder jamais me decepcionará.


Créditos: http://www.nasp.org.br/meditacao-diaria
                http://www.csa-saopaulo.org/

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Meditação Diária - Alcoólicos Anônimos - RGSP

Quarta-feira, 25 de Dezembro de 2013.
É Natal !

O impulso para ganho pessoal... que trouxe tanta dor no passado, cai por terra se aderirmos ao princípio anonimato.

A própria palavra anonimato significa falta de nome, mas há um princípio maior sendo praticado no anonimato do Programa de NA: o princípio da abnegação. 

Quando admitimos nossa impotência para controlar nossas próprias vidas, damos o primeiro passo para longe da teimosia e o primeiro passo para nos aproximar da abnegação. 

Quanto menos tentarmos conduzir nossas vidas de acordo com nossa própria vontade, mais encontraremos o poder e a orientação que um dia tanto fizeram falta em nossas vidas.

Mas o princípio da abnegação nos dá muito mais do que a sensação de melhora... nos ajuda a viver melhor. Nossas idéias de como o mundo deveria ser dirigido começaram a ser menos importantes, e paramos de tentar impor nossa vontade a todos e a tudo à nossa volta. E quando abandonamos nossa pretensão de “saber tudo” e começamos a reconhecer o valor da experiência de outras pessoas, passamos a reconhecer o valor da experiência de outras pessoas, passamos a tratá-las com respeito. 

Os interesses dos outros se tornam tão importantes para nós como os do grupo, mais do que só o que é melhor para nós. Começamos a viver uma vida que é maior do que nós, que é mais do que só nós, nosso nome, nosso ego... Começamos a viver o princípio do anonimato.

Só por hoje

Deus, por favor, liberte-me da minha teimosia. Ajude-me a compreender o princípio do anonimato; ajude-me a viver abnegadamente.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Feliz Natal !

Organiza o Natal

Carlos Drummond de Andrade


Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.

Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.

Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.

A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.

A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.

Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.

O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.

Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.

A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.

O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.

E será Natal para sempre.

Ah! Seria ótimo se os sonhos do poeta se transformassem em realidade.


Texto extraído do livro "Cadeira de Balanço", Livraria José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1972, pág. 52.

Conheça o autor e sua obra visitando "Biografias".

SPH ! Legião Urbana - Só Por Hoje




Meditação do Dia - Narcóticos Anônimos

Terça-feira, 24 DE DEZEMBRO DE 2013

O grupo


"O 12º Passo do nosso programa pessoal diz também que transmitimos a mensagem ao adicto que ainda sofre. ...O grupo é o veículo mais poderoso que temos para transmitir a mensagem."
 Texto Básico, p. 77 

Quando chegamos pela primeira vez às reuniões de Narcóticos Anônimos, encontramos adictos em recuperação. Sabemos que são adictos porque falam sobre as mesmas experiências e os mesmos sentimentos que nós tivemos. Sabemos que estão em recuperação devido à sua serenidade - eles têm algo que nós queremos. Sentimos esperança quando outros adictos partilham a sua recuperação connosco em reuniões de NA. A atmosfera de recuperação atrai-nos às reuniões. Essa atmosfera é criada quando os membros do grupo se comprometem a trabalhar juntos. Tentamos melhorar a atmosfera de recuperação ajudando a preparar a sala de reunião, dando as boas-vindas aos recém-chegados, e falando com outros adictos depois da reunião. Estas demonstrações do nosso compromisso tornam as nossas reuniões atractivas e ajudam os nossos grupos a partilharem a sua recuperação. Partilhar a experiência em reuniões é uma forma de nos ajudarmos uns aos outros, e é por vezes o alicerce para o nosso sentimento de pertença. Identificamo-nos com outros adictos, por isso confiamos na sua mensagem de esperança. Muitos de nós não teriam permanecido em Narcóticos Anônimos sem esse sentimento de pertença e de esperança. Quando partilhamos em reuniões de grupo, apoiamos a nossa recuperação pessoal ao mesmo tempo que ajudamos outros.

Só por hoje: Vou estender a mão a outro adicto no meu grupo e partilhar a minha recuperação.

Fonte e Crédito NA-Portugal
Foto do Blog -> josianneamend.blogspot.com

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Reflexões Diárias - Alcoólícos Anônimos


Segunda-feira, 23 de Dezembro de 2013.

RECUPERAÇÃO, UNIDADE, SERVIÇO

Nosso Décimo Segundo Passo – transmitir a mensagem – é o serviço básico que a irmandade de A.A. faz: este é o nosso principal objetivo e a principal razão de nossa existência.
A LINGUAGEM DO CORAÇÃO, p. 160

Agradeço a Deus por aqueles que vieram antes de mim, aqueles que me falaram para não esquecer dos Três Legados: Recuperação, Unidade, Serviço. No meu Grupo base, os Três Legados estão descritos num letreiro que diz: “Tome um banco de três pernas, tente equilibrá-lo somente em uma perna ou em duas. Nossos Três Legados devem manter-se intactos. Na Recuperação nós conseguimos ficar sóbrios juntos; na Unidade trabalhamos juntos para o bem de nossos Passos e Tradições; e través do Serviço nós damos aos outros, de graça o que nos foi dado”.

Uma das principais dádivas em minha vida tem sido saber que eu não terei mensagem para dar a menos que me recupere em Unidade com os princípios de A.A.
REFLEXÕES DIÁRIAS, p. 366

Meditações Diárias de Narcóticos Anônimos


Segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Novas ideias

"Reavaliamos as nossas velhas ideias, a fim de conhecermos as novas ideias que levam uma nova maneira de viver."
Texto Básico, p. 102


Aprender a viver um novo modo de vida pode ser difícil. Algumas vezes, quando a caminhada fica especialmente dura, ficamos tentados a seguir o caminho mais fácil e viver regido por nossas velhas ideias novamente. Esquecemos que nossas velhas ideias estavam nos matando. Para seguir uma nova maneira de viver, precisamos abrir nossas mentes a novas ideias.

Trabalhar os passos, assistir às reuniões, partilhar com os outros, confiar em um padrinho, essas sugestões podem encontrar nossa resistência e até mesmo nossa rebeldia. OP programa de NA requer esforço, mas cada passo do programa nos traz mais perto de ser as pessoas que verdadeiramente queremos ser. Queremos mudar, crescer e nos tornar alguma coisa a mais do que somos hoje. Para fazer isso, abrimos nossas mentes, experimentamos as novas ideias que encontramos em NA e aprendemos a viver um novo modo de vida.

Só por Hoje: Eu abrirei minha mente para novas ideias e aprenderei a viver minha vida de uma nova maneira.

domingo, 22 de dezembro de 2013

NAS ORAÇÕES DE NATAL, POR FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER



Rememorando o Natal, lembramo-nos de que Jesus é o Suprimento Divino à Necessidade Humana.

Para o Sofrimento, é o Consolo;
Para a Aflição, é a Esperança;
Para a Tristeza, é o Bom Ânimo;
Para o Desespero, é a Fé Viva;
Para o Desequilíbrio, é o Reajuste;
Para o Orgulho, é a Humildade;
Para a Violência, é a Tolerância;
Para a Vaidade, é a Singeleza;
Para a Ofensa, é a Compreensão;
Para a discórdia, é a Paz;
Para o egoísmo, é a Renúncia;
Para a ambição, é o Sacrifício;
Para a Ignorância, é o Esclarecimento;
Para a Inconformação, é a Serenidade; 
Para a Dor, é a Paciência;
Para a Angústia, é o Bálsamo;
Para a Ilusão, é a Verdade;
Para a Morte, é a Ressurreição.


Se nos propomos, assim, aceitar o Cristo por Mestre e Senhor de nossos caminhos, é imprescindível recordar que o seu Apostolado não veio para os sãos e, sim, para os antigos doentes da Terra, entre os quais nos alistamos...

Buscando, pois, acompanhá-lo e servi-lo, façamos de nosso coração uma luz que possa inflamar-se ao toque de seu infinito amor, cada dia, a fim de que nossa tarefa ilumine com Ele a milenária estrada de nossas experiências, expulsando as sombras de nossos velhos enganos e despertando-nos o espírito para a glória
imperecível da Vida Eterna.

FONTE E CRÉDITO: Do livro "Os Dois Maiores Amores" - Francisco C. Xavier - Autores Diversos

Agenda Cristã de uma codependente


Recebi um e-mail de uma codependente, que me foi endereçado à título de publicação. Vivemos só por hoje, mas o Natal se anuncia a todo instante e não podemos ficar alheios às mensagens recebidas. O espírito natalino me conduz a bons sentimentos, bons propósitos. É uma época em que até os presidiários, aqueles de bom comportamento, são indultados. É uma época de pedir perdão e de perdoar, além dos mais variados tipos de pedidos e de estímulos que o mundo capitalista, com seus aparelhos ideológicos, sua filosofia do lucro, sua sofisticada inteligência midiática, nos torna pródigos. Seria ótimo que o espírito do  natalino nos acompanhasse todos os dias de cada ano que está por vir. Essa época, também, muito me aproxima do meu PS, portanto, entro no ritmo da fé e posto a mensagem que me foi sugerida, embora não tenha compreendido bem o final da mesma:
"A renúncia será um privilégio para você.
O sofrimento glorificará sua vida.
A prova dilatará seus poderes.
O trabalho constituirá título de confiança em seu caminho.
O sacrifício sublimará seus impulsos.
A enfermidade do corpo será remédio salutar para a sua alma.
A calúnia lhe honrará a tarefa.
A perseguição será motivo para que você abençoe a muitos.
A angústia purificará suas esperanças.
O mal convocará seu espírito à prática do bem.
O ódio desafiar-lhe-á o coração aos testemunhos de amor.
A Terra, com os seus contrastes e renovações incessantes, 
representará bendita escola de aprimoramento individual, 
em cujas lições purificadoras deixará você o egoísmo para sempre esmagado".

Para finalizar quero agradecer a mensagem enviada e declarar que as portas deste blog estão abertas para quem quiser postar seus textos, seus questionamentos, problematizações, opiniões e qualquer outra manifestação que tenha a ver com tudo o que envolve dependência química e co-dependência e tudo o mais que guardar correspondência, ainda que de modo subjetivo. Aqui a boa vontade sentou praça, a mente aberta alargou-se e a honestidade é uma mão estendida. Não somos censores de nada. Temos nossas opiniões, o que não significa dizer que não aceitamos as opiniões divergentes. Enfim, este blog é dialético!

A fonte fornecida foi "AGENDA CRISTÃ, 39, FCXavier, FEB.
 

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