sexta-feira, 9 de julho de 2010

Livro Azul Capítulo 7, Alcoólicos Anônimos - Grupo 1 de maio



TRABALHANDO COM OS OUTROS

A experiência prática ensina-nos que não há nada que assegure tanto a imunidade à bebida como o trabalho intensivo com outros alcoólicos. Resulta quando todos os outros processos falham. Esta é a nossa décima segunda sugestão: levar esta mensagem a outros alcoólicos! Você pode ajudá-los quando mais ninguém consegue. Consegue ganhar-lhes a confiança quando os outros fracassam. Lembre-se que eles estão muito doentes.
A vida vai adquirir um novo sentido. Ver as pessoas recuperar, vê--las ajudar os outros, ver desaparecer a solidão, ver a fraternidade do grupo crescer à sua volta, ter uma quantidade de amigos - é uma experiência a não perder. O contacto frequente com recém-chegados e de uns com os outros é a faceta que ilumina as nossas vidas.
Talvez você não conheça nenhuns bebedores que se queiram recuperar. Não terá dificuldade em encontrar alguns se perguntar a uns tantos médicos, padres ou pastores e em hospitais. Eles terão muito prazer em ajudá-lo, mas não comece por querer pregar ou moralizar. Infelizmente há muitos preconceitos e, se os provocar, ficará em desvantagem. Padres e médicos são pessoas competentes e, se quiser, pode aprender muito com eles, mas acontece que, pela própria experiência de bebedor, você pode ser de uma utilidade única a outros alcoólicos. Portanto coopere; nunca critique. O nosso único objectivo é sermos úteis.
Quando descobrir um possível membro para Alcoólicos Anónimos, tente saber tudo a seu respeito. Se ele não quiser parar de beber, não perca tempo a tentar persuadi-lo. Pode estragar uma oportunidade futura. Este conselho também se aplica à família dele, que se deve mostrar paciente e perceber que está a lidar com uma pessoa doente.
Se houver algum indício de que ele queira parar, tenha uma longa conversa com a pessoa que está mais interessada nele - geralmente a mulher. Forme uma ideia sobre o seu comportamento, os seus problemas, o seu passado, a gravidade do seu estado e sobre as suas inclinações religiosas. Você precisa destas informações para se poder pôr no lugar dele e perceber como gostaria de ser abordado se a situação se invertesse.
Por vezes é aconselhável esperar por uma nova bebedeira. A família pode levantar objecções mas, a não ser que o seu estado de saúde seja muito grave, é melhor arriscar. Não tente lidar com ele enquanto estiver muito bêbedo, a não ser que ele se torne ameaçador e a família precise da sua ajuda. Espere pelo fim da bebedeira ou, pelo menos, por um intervalo de lucidez. A seguir, deixe que a família ou um amigo lhe pergunte se ele quer definitivamente parar de beber e se está disposto a fazer tudo o que for preciso para o conseguir. Se ele disser que sim, deve procurar fixar-se a atenção dele em si, como uma pessoa que recuperou. Deverá então falar de si como pertencendo a um grupo de pessoas, cujos membros tentam ajudar outros como parte da sua própria recuperação e que falará com ele de boa vontade, se ele quiser.
Se ele não o quiser ver, não force a situação. A família também não deve pedir-lhe insistentemente que ele faça o que quer que seja, nem tão--pouco falhar-lhe demasiado sobre si. Eles devem esperar que ele saia de uma nova bebedeira. Entretanto poderá deixar-lhe este livro ao seu alcance. Aqui não há regras específicas a indicar. Compete à família decidir sobre estas coisas, mas deve recomendar-lhes que não se angustiem excessivamente porque podem deitar tudo a perder.
Geralmente a família não deve tentar contar a sua história. Sempre que possível, evite conhecer um alcoólico através da família. Uma abordagem através de um médico ou de uma instituição tem melhores possibilidades. Se a pessoa em questão precisar de ser hospitalizada, deverá sê-lo, mas nunca à força, a não ser que se mostre violenta. Deixe que seja o médico, se ele concordar, a dizer-lhe que tem qualquer coisa para lhe oferecer com vista a uma solução.
Quando a pessoa se sentir melhor, o médico poderá sugerir-lhe que você a visite. Embora tenha falado com a família, não mencione isso no primeiro encontro. Deste modo, ela não se sentirá pressionada e perceberá que pode lidar consigo sem ser importunada pela família. Visite-a quando ela ainda estiver a tremer. Se ela estiver deprimida, pode ser que esteja mais receptiva.
Se possível, veja a pessoa a sós. De princípio, fale de generalidades. Ao fim de um certo tempo, encaminhe a conversa para uma fase qualquer do seu percurso alcoólico. Fale-lhe bastante dos seus hábitos de bebida, sintomas e experiências, até que ela se sinta com coragem para falar de si própria. Se ela quiser falar, deixe que o faça. Terá assim uma melhor ideia de como continuar. Se não for uma pessoa comunicativa, faça-lhe um resumo do seu percurso alcoólico até à altura em que deixou de beber. Mas ainda não diga nada sobre a maneira como o conseguiu. Se ela mostrar que quer falar a sério, fale-lhe demoradamente sobre os problemas que o álcool lhe causou, mas tenha sempre a preocupação de não moralizar nem dar lições. Se ela estiver de ânimo leve, conte-lhe histórias divertidas das suas aventuras e faça com que ela conte algumas das suas.
Quando ela perceber que você sabe tudo sobre a bebida e os seus segredos, comece a descrever-se a si mesmo como alcoólico. Diga-lhe como se sentiu desconcertado e como acabou por saber que estava doente. Faça-lhe uma descrição da sua luta para parar. Faça-lhe ver essa deformação mental que leva ao primeiro copo de uma bebedeira. Sugerimos que se proceda como fizemos no capítulo sobre alcoolismo. Se for alcoólico, irá compreendê-lo imediatamente. Ela irá comparar as suas próprias incongruências mentais com algumas das suas.
Se você estiver convencido de que se trata realmente de um alcoólico, comece a insistir no carácter incurável da doença. A partir da sua própria experiência mostre-lhe como essa estranha condição mental, que envolve a primeira bebida, impede o normal funcionamento da força de vontade. Por esta altura, não faça ainda referência a este livro, a não ser que ele o tenha visto e queira falar sobre ele. E tenha cuidado em não o rotular de alcoólico. Deixe-o tirar as suas próprias conclusões. Se ele se agarrar à ideia de que ainda consegue controlar a sua maneira de beber, diga-lhe que isso é realmente possível, se o seu alcoolismo não estiver ainda muito avançado. Insista porém, que se estiver seriamente afectado, ele terá poucas probabilidades de recuperar só por si.
Continue a falar do alcoolismo como uma doença, uma doença fatal. Fale-lhe das condições físicas e mentais que a acompanham. Mantenha a atenção dele centrada na sua própria experiência pessoal. Explique-lhe que muitos estão condenados sem nunca se darem conta da sua situação. Com razão, os médicos têm relutância em dizer aos seus pacientes alcoólicos a inteira verdade sobre os seus casos, a não ser que vejam alguma vantagem nisso. Mas você pode falar sobre o carácter irreversível do alcoolismo porque lhe apresenta uma solução. Em breve verá o seu amigo admitir que tem muitas, senão todas as características de um alcoólico. Se o seu próprio médico se dispuser a dizer-lhe que é alcoólico, tanto melhor. Mesmo que o seu protegido possa ainda não ter admitido inteiramente a sua condição, acabou por ficar com curiosidade em saber como você se recuperou. Deixe ser ele a fazer-lhe a pergunta, se ele quiser. Diga-lhe exactamente o que lhe aconteceu. Saliente à sua vontade o aspecto espiritual. Se se tratar de um agnóstico ou ateu, sublinhe fortemente que ele não tem de estar de acordo com a sua concepção de Deus. Ele pode optar pela concepção que quiser, desde que a ele lhe faça sentido. O importante é que esteja disposto a acreditar num Poder superior a ele próprio e que viva segundo princípios espirituais.
Ao lidar com uma tal pessoa, é preferível utilizar uma linguagem de todos os dias para descrever princípios espirituais. É inútil despertar-lhe qualquer preconceito que possa ter contra determinados termos e conceitos teológicos, já de si confusos para ela. Não provoque tais questões, quaisquer que sejam as suas convicções pessoais.
Pode dar-se o caso do seu interlocutor pertencer a uma confissão religiosa. A sua formação e conhecimentos religiosos podem ser muito superiores aos seus. Nesse caso, ele pode interrogar-se como é que é de algum modo possível você acrescentar algo ao que ele já sabe. Ficará porém intrigado por saber como é que as convicções dele não resultaram na prática e as suas parecem ter resultado com tanta eficácia. Ele pode ser um exemplo que demonstra que a fé só por si não é suficiente. Para ser vital, a fé tem de se fazer acompanhar pelo sacrifício pessoal e pela acção desinteressada e construtiva. Faça compreender bem que não tem nenhuma intenção de lhe ensinar religião. Admita que ele sabe possivelmente muito mais do que você nesse aspecto, mas chame-lhe a atenção para o facto de que, apesar da profundidade da sua fé e conhecimentos, ele não conseguiu pô-los em prática, porque senão não teria bebido. Talvez a sua história o ajude a perceber onde ele falhou ao aplicar esses mesmos preceitos que tão bem conhece. Nós não representamos nenhuma crença ou confissão específicas. Lidamos apenas com princípios gerais comuns à maioria das religiões.
Descreva em linhas gerais o programa de acção, explicando como fez a sua própria avaliação pessoal, como endireitou o seu passado e por que se empenha agora em ajudá-lo. É importante que ele se aperceba que o seu esforço para lhe transmitir isto desempenha um papel vital na sua própria recuperação. Com efeito, ele pode estar a ajudá-lo mais a si do que você a ele. Faça-lhe ver com clareza que ele não tem qualquer obrigação para consigo e só espera que ele tente ajudar outros alcoólicos quando sair das suas próprias dificuldades. Mostre-lhe a importância de colocar o bem-estar dos outros antes do seu próprio. Explique-lhe de um modo claro que ele não tem que se sentir pressionado e que, se quiser, ele não precisa de o voltar a ver. Não deve ficar ofendido se ele quiser desistir, porque ele ajudou-o mais a si do que você a ele. Se as suas palavras tiverem mostrado bom senso, calma e muita compreensão humana, talvez tenha feito um amigo. Talvez o tenha perturbado com a questão do alcoolismo. Tanto melhor. Quanto mais desesperado ele se sentir, melhor. Terá mais probabilidades de aceitar as suas sugestões.
O seu interlocutor pode dar-lhe razões pelas quais julgue não precisar de seguir todo o programa. Pode insurgir-se perante a perspectiva de uma revisão drástica do seu passado que implica falar com outra pessoa. Não contrarie os seus pontos de vista neste aspecto. Diga-lhe que já passou pelo mesmo mas que, sem dúvida, não teria feito qualquer progresso se não tivesse passado à acção. No primeiro encontro fale-lhe da Comunidade de Alcoólicos Anónimos. Se ele se mostrar interessado, empreste-lhe o seu exemplar deste livro.
A não ser que o seu amigo queira continuar a falar de si próprio, não estrague o bom acolhimento a que ele se dispôs. Dê-lhe uma oportunidade para ele reflectir mas, se ficar, deixe-o orientar a conversa como ele quiser. Às vezes a pessoa mostra-se impaciente por querer passar logo à acção e você pode sentir-se tentado a deixá-lo fazer isso. Por vezes é um erro. Se ele vier a ter problemas, é capaz de dizer que a precipitação foi sua. O seu sucesso com alcoólicos será muito maior se não se comportar apaixonadamente com um espírito de cruzada ou de reforma. Nunca fale a um alcoólico num tom de superioridade moral ou espiritual. Exponha-lhe simplesmente o conjunto de instrumentos espirituais para ele examinar. Mostre-lhe como resultaram para si. Ofereça-lhe amizade e camaradagem. Diga-lhe que, se ele se quiser recuperar, você fará tudo para o ajudar.
Se ele não se mostrar interessado na sua solução, se ele apenas esperar de si que lhe sirva de banqueiro para as suas dificuldades financeiras ou de enfermeiro nas suas bebedeiras, pode ter que o deixar até ele mudar de atitude. Talvez então ele lá chegue depois de sofrer um pouco mais.
Se ele estiver verdadeiramente interessado e o quiser voltar a ver, peça-lhe que entretanto leia este livro. Depois disso, terá que decidir por ele próprio se quer continuar ou não. Não deve ser empurrado nem espicaçado por si, pela mulher ou pelos amigos. Se ele tiver que encontrar Deus, a vontade deve vir-lhe de dentro.
Se ele achar que consegue resolver o assunto por um outro processo qualquer ou se preferir outra abordagem espiritual, encoraje-o a seguir a sua própria consciência. Nós não temos o monopólio de Deus; temos apenas uma via que resultou para nós. Indique porém, que nós, os alcoólicos, temos muito em comum e que gostaria de ficar amigo dele em qualquer dos casos. Deixe-se ficar por aí.
Não desanime se não obtiver um resultado imediato. Procure outro alcoólico e tente de novo. De certeza que encontrará alguém suficientemente desesperado para aceitar com avidez o que tem para oferecer. Consideramos uma perda de tempo andar atrás de uma pessoa que não consegue ou não quer colaborar. Se deixar essa pessoa entregue a si mesma, ela poderá em breve convencer-se de que não consegue recuperar sozinha. Gastar demasiado tempo num só caso é negar a outro alcoólico uma oportunidade de viver e de ser feliz. Um dos nossos membros falhou completamente com os primeiros cinco ou seis eventuais membros. Ele diz muitas vezes que, se tivesse persistido com eles, poderia ter negado a oportunidade a muitos outros que entretanto se recuperaram.
Admitamos agora que está a fazer a sua segunda visita a uma pessoa. Ela já leu este livro e diz estar preparada para fazer os Doze Passos do programa de recuperação. Em face da sua própria experiência pessoal, pode dar-lhe muitos conselhos práticos. Mostre-se disponível se ela se decidir a contar-lhe a sua história, mas não insista se ela preferir consultar outra pessoa.
Possivelmente estará sem dinheiro e sem casa. Se assim for, pode tentar ajudá-la a arranjar trabalho ou dar-lhe uma certa ajuda financeira, mas não deve com isso privar a família ou os credores do dinheiro que lhes é devido. Talvez queira levá-la para sua casa por uns dias, mas então seja discreto. Assegure-se de que será bem recebida pela sua família e que ela não está a tentar explorá-lo pelo seu dinheiro, pelas suas relações sociais ou pela sua casa. Permita isso, e só a vai prejudicar. Irá dar-lhe a possibilidade de não ser sincera e poderá estar a contribuir mais para a sua destruição do que para a sua recuperação.
Nunca evite estas responsabilidades, mas, se as assumir, certifique-se de que está no caminho certo. Ajudar os outros é a pedra fundamental da sua própria recuperação. Um acto de bondade ocasional não é suficiente. Tem que se fazer de Bom Samaritano todos os dias, se for necessário. Pode significar perder noites de sono, interferir grandemente com o que lhe dá prazer e interromper o seu trabalho. Pode significar partilhar o seu dinheiro e a sua casa, aconselhar mulheres e familiares desesperados, ter que ir inúmeras vezes a esquadras de polícia, casas de repouso, hospitais, prisões e asilos. O seu telefone pode tocar a qualquer hora do dia e da noite. A sua mulher pode sentir-se abandonada. Um bêbedo pode partir a mobília de sua casa ou queimar--lhe o colchão. Poderá ter que lutar com ele se for violento. Por vezes terá que chamar um médico e dar-lhe sedativos sob prescrição. Outras vezes terá que chamar a polícia ou uma ambulância. Ocasionalmente terá que enfrentar situações deste género.
Raramente permitimos que um alcoólico fique por muito tempo em nossas casas. Para ele não é bom e às vezes cria graves complicações para a família.
Mesmo que um alcoólico não colabore, não há razão para descuidar a família dele. Deve continuar-se a manifestar-lhe amizade e propor-lhe este modo de vida. Se aceitarem e praticarem os princípios espirituais, a probabilidade de recuperação para o chefe de família é muito maior. E, mesmo que continue a beber, a família achará a vida mais suportável.
Para o caso do alcoólico que pode e está disposto a recuperar-se, não é necessário nem desejável utilizar caridade, no sentido vulgar do termo. Os que anseiam logo por dinheiro e casa antes de vencerem o álcool, vão pelo caminho errado. Contudo, sempre que a situação se justifique, vamos até onde for preciso para assegurar isso mesmo. Isto pode parecer incongruente, mas nós achamos que não.
Não é a questão de dar que está em causa, mas sim quando e como fazê-lo. É isso que faz frequentemente a diferença entre o fracasso e o êxito. A partir do momento em que a nossa intervenção se situa ao nível da caridade, o alcoólico começa a depender mais da nossa ajuda do que de Deus. Exige isto e aquilo, alegando que não consegue vencer o álcool enquanto as suas necessidades materiais não forem satisfeitas. Disparate! Alguns de nós tivemos de aprender da maneira mais dura esta verdade: com trabalho ou sem trabalho, com mulher ou sem mulher, pura e simplesmente não deixamos de beber enquanto colocarmos a nossa dependência dos outros à frente da dependência de Deus.
É preciso gravar na consciência de cada pessoa que ela pode recuperar apesar dos outros. A única condição é confiar em Deus e reparar o mal causado.
Vejamos agora o problema doméstico: pode tratar-se de divórcio, separação ou simplesmente de relações tensas. Quando o alcoólico tiver feito as reparações possíveis aos familiares e lhes tiver explicado os princípios pelos quais vive actualmente, ele deve passar a aplicar estes mesmos princípios em casa, isto é, se tiver a sorte de ter uma casa. Embora a família possa ter culpas em muitos aspectos, não é isto que o deve preocupar. Deve concentrar-se nas provas que deve dar de si mesmo no plano espiritual. As discussões e as buscas de quem tem ou não tem culpa devem evitar-se como a peste. Em muitos lares isto é extremamente difícil mas tem de se conseguir se se quiser obter resultados. Se se persistir nisto durante uns tantos meses, o efeito que causará na família será seguramente positivo. As pessoas mais incompatíveis descobrem que têm uma base comum. Pouco a pouco a família acaba por ver e admitir os seus próprios defeitos. Consegue-se então falar deles num clima de amizade e de ajuda recíproca.
Perante resultados concretos, a família quererá possivelmente colaborar. Estas coisas acontecerão naturalmente e a seu devido tempo, desde que o alcoólico continue a demonstrar que consegue manter-se sóbrio e a mostrar-se atencioso e útil, independentemente do que possam dizer ou fazer. É evidente que, muitas vezes ficamos muito longe disto, mas temos de tentar reparar logo os danos causados se não quisermos correr o risco de sermos punidos com uma bebedeira.
No caso de divórcio ou de separação, o casal não deve ter excessiva pressa em retomar a vida em comum. O marido deve assegurar a sua recuperação e a mulher deve compreender inteiramente o novo modo de vida dele. Se quiserem retomar a sua antiga relação, tem de ser numa base melhor, já que a anterior não resultou. Isto implica uma nova atitude e um novo espírito em todos os sentidos. Por vezes é melhor para todos os que estão envolvidos que o casal continue separado. É óbvio que não se pode estipular nenhuma regra. Há que deixar o alcoólico continuar o seu programa dia a dia. Quando chegar a altura de retomarem a vida em conjunto, isso será evidente para ambos.
Que nenhum alcoólico diga que não consegue recuperar a não ser que tenha a família de volta. Não é de todo assim. Nalguns casos, por uma razão ou outra, a mulher nunca mais volta. Lembre à pessoa em questão que a sua recuperação não depende dos outros, mas sim da sua relação com Deus. Temos visto pessoas recuperarem sem que as suas famílias jamais tenham voltado. Temos visto outras recaírem quando a família volta cedo demais.
Tanto você como o novo membro devem caminhar dia a dia na via do progresso espiritual. Se persistirem, acontecerão coisas extraordinárias. Ao olharmos para trás, percebemos que, quando nos pusemos nas mãos de Deus, as coisas que nos aconteceram foram muito melhores do que tudo aquilo que possamos ter planeado. Siga o que lhe dita um Poder Superior e viverá então num novo e maravilhoso mundo, seja quais forem as circunstâncias actuais da sua vida!
Ao tentar ajudar um alcoólico e a sua família, deve ter cuidado em não tomar parte nas suas discussões. Pode com isso estragar a oportunidade de ser útil. Insista porém com a família do alcoólico em que ele esteve muito doente e deve ser tratado em conformidade com isso. Deve preveni-los contra o ressentimento e o ciúme que vão surgir. Deve lembrar-lhes que os seus defeitos de carácter não vão desaparecer de um dia para o outro. Explique-lhes que ele entrou num período de crescimento. Nos momentos de impaciência, peça-lhes para se lembrarem da bênção que é o facto de ele estar sóbrio.
Se você tiver resolvido com êxito os seus próprios problemas domésticos, conte à família do recém-chegado como o conseguiu. Deste modo pode pô-los no caminho certo sem se tornar crítico. A história da reconciliação com a sua mulher vale mais do que qualquer crítica.
Partindo do princípio de que estamos espiritualmente preparados, podemos fazer toda a espécie de coisas que não é suposto os alcoólicos fazerem. Têm-nos dito que não devemos frequentar sítios onde se serve álcool; não devemos ter álcool em casa; devemos evitar as pessoas que bebem; devemos evitar ver filmes com cenas em que se bebe; não devemos ir a bares; os nossos amigos devem esconder as garrafas quando vamos a casa deles; não devemos pensar nem nunca nos devem fazer pensar em álcool. A nossa experiência demonstra que isto não é necessariamente assim.
Confrontamo-nos com estas situações todos os dias. Um alcoólico incapaz de encarar isto, tem ainda uma mentalidade alcoólica; há qualquer coisa que não está bem no plano espiritual. A sua única probabilidade de ficar sóbrio seria num lugar como um glaciar da Gronelândia e, mesmo aí, poderia aparecer um esquimó com uma garrafa de whisky e estragar tudo! Basta perguntar a qualquer mulher que tenha mandado o marido para lugares distantes pensando que, deste modo, ele escaparia ao problema de álcool.
Na nossa opinião, qualquer estratagema para combater o alcoolismo que se proponha proteger a pessoa doente da tentação, está condenado ao fracasso. O alcoólico que tenta proteger-se a si próprio, pode ter êxito durante um certo tempo, mas normalmente acaba com uma explosão mais violenta do que as antecedentes. Nós experimentámos estes métodos. As tentativas para fazer o impossível fracassaram sempre.
Por isso a nossa regra não é evitar um lugar onde se beba, se houver uma razão legítima para lá estar. Isto inclui bares, nightclubs, bailes, recepções, casamentos e mesmo festas informais. Para uma pessoa que tenha convivido de perto com um alcoólico, isto pode parecer-lhe que está a tentar a Providência, mas não é.
Verá que fizemos uma reserva importante. Pergunte-se a si mesmo em cada ocasião: "Tenho ou não uma boa razão para ir a este sítio por motivos sociais, de negócios ou pessoais? Ou espero tirar indirectamente uma certa satisfação do ambiente desses sítios?". Se responder satisfatoriamente a estas perguntas, não tem nada a recear. Vá ou não, conforme lhe parecer melhor. Mas antes de partir, assegure-se de que está a pisar um terreno espiritual firme e que o seu motivo para lá ir é inteiramente justificável. Não pense no que pode tirar da situação; pense sim no que lhe pode levar. Mas, se se sentir inseguro, o melhor é ir ter com outro alcoólico!
Para quê estar com ar de mártir em sítios, onde se bebe, a suspirar pelos bons velhos tempos. Se for uma festa alegre, tente contribuir para o prazer dos que estão presentes; se for uma reunião de negócios, vá e trate dos seus com entusiasmo. Se estiver com uma pessoa que quer ir comer a um bar, não hesite em fazer-lhe companhia. Dê a perceber aos seus amigos que eles não têm de mudar de hábitos por sua causa. Na altura e lugar próprios, explique aos seus amigos por que não lhe assenta bem o álcool. Se fizer isto com seriedade, poucas pessoas lhe oferecerão bebidas. Quando bebia, ia-se afastando progressivamente da vida. Agora está a regressar para a vida social do mundo. Não comece a afastar-se outra vez só porque os seus amigos bebem álcool.
A sua função agora é estar no lugar onde é de maior utilidade para os outros, de modo que nunca hesite em ir onde possa ser útil. Não deve hesitar em ir ao sítio mais sórdido deste mundo, tendo isto em vista. Mantenha-se por estas razões na linha de fogo da vida e Deus protegê-lo-á de todo o perigo.
Muitos de nós temos álcool em casa. Precisamos dele muitas vezes para ajudar novos membros ainda recentes a aguentar os efeitos de grandes ressacas. Alguns de nós servimos álcool aos amigos, desde que não sejam alcoólicos. Outros porém, pensam que não devíamos servir álcool a ninguém. Nunca discutimos esta questão. Achamos que cada família deve decidir por si à luz das suas próprias circunstâncias.
Temos cuidado em nunca mostrar intolerância ou ódio pela bebida como um facto social. A experiência mostra-nos que uma tal atitude não ajuda ninguém. Cada um dos recém-chegados está à espera de encontrar essa atitude entre nós e fica imensamente aliviado quando percebe que não andamos na caça às bruxas. Um espírito de intolerância poderia afastar alcoólicos, cujas vidas teriam sido salvas, se não fosse por esta estupidez. Nem tão-pouco ajudaríamos deste modo a causa da temperança, porque em cada mil bebedores não haveria um único que aceitasse ouvir falar de álcool por alguém que o odeia.
Esperamos que um dia os Alcoólicos Anónimos ajudem o público a melhor tomar consciência da gravidade do problema alcoólico, mas seremos de pouca utilidade se a nossa atitude for de rancor ou hostilidade. As pessoas que bebem não a suportariam.
No fundo, fomos nós que criámos os nossos próprios problemas. As garrafas eram apenas um símbolo. Além disso, deixámos de lutar contra todos e contra tudo. Tem de ser!

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